segunda-feira, 2 de maio de 2016

Questionar!

                       Questionar, antes de opinar.

Image courtesy of Stuart Miles at FreeDigitalPhotos.net

A história é construída por cada um de nós que nascidos neste mundo, chamado Terra, integra-se a um grupo social interiorizando seus valores, normas, padrões, códigos, linguagens, aceitando ou não as regras de conduta impostas a cada um.
Nossos pais fizeram e viram a história acontecer, assim como nossos avós, bisavós, e aqueles que virão depois de nós, no atual momento  estamos vivendo um processo que sem dúvida irá figurar entre um dos mais importantes acontecimentos históricos brasileiros. Assim como hoje ao olhar para trás  identificamos importantes períodos em nosso país, um dia olharemos para trás e teremos em nossos livros didáticos, ao lado de alguns outros acontecimentos, a tentativa frustrada ou não de um impeachment impetrado contra a atual (até hoje 25/04/216, ao menos) presidenta da República Federativa do Brasil, Dilma Vana Rousseff.
Desde que Dilma foi reeleita democraticamente, em 2014, para um mandato consecutivo, a oposição tem tentado a todo custo encontrar uma via legal para destituí-la do cargo, até o momento a busca não obteve sucesso, não satisfeitos houve um movimento que conseguiu aprovar o encaminhamento de um pedido de impeachment, que aprovado na Câmara dos Deputados, segue para apreciação do Senado.
Não cabe mais a discussão em torno da legalidade ou não da abertura do processo contra a presidenta, fazê-la é duvidar ainda mais das instituições brasileiras e concordar que nosso país é, de fato, uma festa regada a "pizza" e piada, deixemos essa visão completamente pessimista consagrar-se após termos a certeza de que sim, vivemos a piada pronta.
Mais do que nunca estamos em um momento de reflexão ímpar e única no espaço de tempo que iremos viver, talvez algo dessa dimensão não aconteça no curso de nossa história, desse pequeno trecho da história que seremos capazes de ver ser escrita, ou talvez estejamos sendo otimistas demais, é possível. Mas o atual momento é antes de mais nada, um momento de questionamento, reflexão e dúvida.
O governo atual é marcado por uma série de erros, erros que traíram em diversos momentos aqueles que por décadas esperaram uma gestão efetivamente democrática, progressista, pautada pela distribuição equitativa de renda, pela reforma agrária, pela taxação de grandes fortunas, pelo amplo acesso das minorias aos espaços historicamente reservados à elite, enfim, uma gestão à esquerda, embora passos importantes tenham sido dados, os resultados ficaram muito aquém do esperado e sonhado.
Ainda assim, acreditamos ser importante questionar o caminho escolhido para revoltarmo-nos, para reivindicar promessas antigas e levar a frente a indignação para com os rumos que o Brasil vem seguindo. Erros são cometidos em todos os governos, projetos políticos podem mudar a depender de uma série de fatores, nosso maior poder de reivindicação é, desde que voltamos a ser uma democracia, nosso voto. Caso decidamos anular o diálogo permitido pela democracia do voto, sem uma base esclarecidamente válida, legal e honesta, teremos jogado fora não apenas a democracia, que ainda engatinha, brasileira, mas todas as vidas que lutaram para que nós vivêssemos um Estado democrático de direito.
Este é o momento de nos questionarmos a quem serve o impeachment, quem o quer e, principalmente: O que ele significará para a história, a qual nós estamos vendo ser escrita?

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Relacionamento II

Relacionamentos: sem padronização do afeto

Image courtesy of David Castillo Dominici at FreeDigitalPhotos.net

Ao longo do tempo a sociedade parece ter desenvolvido a necessidade de criar estereótipos a todos nós, cada indivíduo tem de ser devidamente colocado dentro de uma caixa especificamente rotulada, isso começa antes mesmo de  nascermos, o rótulo mulher/homem nos é entregue antes de nossa constituição social. A não capacidade de enquadrar e identificar cada pessoa ou situação parece gerar um profundo incômodo e até revolta em determinados seres humanos e grupos.
A necessidade social de estereotipar e rotular tudo que é possível, causa um verdadeiro imbróglio quando falamos em relacionamentos, especialmente ao se considerar as inúmeras possibilidades de relacionamentos que a cada dia ganham força, evidência e adeptxs. A história humana criou uma série de regras e necessidades coletivas, entre elas, está o envolvimento afetivo e obrigatório por pessoas e, pessoas de sexo oposto, porém, a complexidade humana é infinitamente maior do que as regras reducionistas ditadas pela sociedade, a forma de nos relacionarmos não deve ser pautada por receitas conservadoras e falidas,  isso já foi assunto em outro momento aqui, inclusive.
Da mesma forma que o processo de socialização desde muito cedo nos mostra que precisamos obrigatoriamente ser pessoas cisexuais, heterossexuais, monogâmicas e seguir os modelos e padrões impostos ao longo da vida., também nos diz a maneira como devemos nos relacionar afetivamente com o outro. Mas e quando há um questionamento deste modelo? Destas regras? E quando o individuo não quer se relacionar de uma maneira tradicional?
Sempre que lidamos com situações que pressupõe um questionamento dos padrões vigentes e aceitos como "normais", precisamos estar dispostos ao conflito, à discussão e à luta, pois, ir conta uma corrente estabelecida há milênios, não costuma ser algo de muita facilidade. O texto passado falava sobre relacionamentos gays e a não categorização do envolvimento afetivo, especialmente por ser impossível estabelecer regras ou receitas para tratar de pessoas essencialmente diferentes, em situações totalmente variadas, pois bem, é preciso mais que nunca, falar sobre as possibilidades de se relacionar e questionar o modelo tradicional monogâmico e heterossexual. Não se trata, no entanto, de uma tentativa de desconstruir ou invalidar tal modelo, pelo contrário, apenas um intento de mostrar a diversidade possível nas maneiras de se relacionar e garantir o respeito as decisões individuais de cada um.
Muito se fala sobre a instituição do relacionamento monogâmico como uma imposição estranha ao humano, que é por natureza, na visão de alguns, um ser de relacionamentos múltiplos, sendo muito mais espontânea a possibilidade de não fechar-se de forma imposta. Ora, não é difícil encontrar pela internet ou mesmo em nosso convívio, estatísticas, dados e relatos, de relações fechadas em teoria, cujos envolvidos mantêm casos extraconjugais. Será que há certa dose de hipocrisia?
A instituição dos relacionamentos prevê inúmeras regras, preceitos, valores e uma moral conservadora. Ao longo da vida aprendemos a sonhar, desejar e estabelecer o relacionamento com o outro, o namoro, o noivado, o casamento, sem nunca questionarmos o porquê da construção e da forma e mesmo o porquê de necessariamente termos que viver esta aspiração social. Podemos não querer um namoro, um noivado ou mesmo o casamento em nossa individualidade, porém, a sociedade não aceita sob hipótese alguma tal opção. Então, como falar em relacionamento aberto nesse contexto conservador?
O relacionamento aberto, amor livre, polimor, dentre outras possibilidades, vêm a cada dia ganhando espaço e ressonância entre pessoas que desde algum momento passaram a questionar as relações tradicionais encarando-as como problemáticas, hipócritas e inviáveis, não a relação em si, mas sim, o discurso que as constrói e cristaliza.
A cada dia que passa caminhamos para a construção de uma sociedade que se pautará pela diversidade, na qual não  deverá haver outro caminho, senão aquele do diálogo, debate, reflexão e respeito; ao propor discussões como esta, não pretendemos invalidar ou deslegitimar as variadas formas de relacionamento possíveis, aberto ou monogâmico, pelo contrário, trata-se na verdade de tentativas de evidenciar a diversidade, a diferença, para que com o conhecimento, cresça o respeito e, principalmente que as pessoas possam saber que ao contrário do que elas aprenderam, há inúmeras formas de se relacionar, se apaixonar, de se envolver. O afeto é por natureza livre, não pode haver medida ou regras com o objetivo de padronizá-lo ou categorizá-lo.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Relacionamento I

 Você já ouviu alguém dizer que relacionamentos gays não duram? Que homens são promíscuos e sexualizados demais para viverem relacionamentos estáveis, monogâmicos ou não? Há diversos discursos dentro e fora do meio LGBT tentando sustentar e reproduzir tal visão. Vamos falar sobre isso? Será que relacionamentos gays são, naturalmente, inviáveis?

Os Instáveis Relacionamentos Gays

Adapatado: Image courtesy of Simon Howden at FreeDigitalPhotos.net

Há uma ideia, equivocada a nosso ver, que rodeia o imaginário de  diversas pessoas, inclusive homossexuais, trata-se de um constatação duvidosa dizendo respeito aos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, especialmente entre homens, a de que esse tipo de relação não tem futuro e de que está, inevitavelmente, fadada ao fracasso.
Em busca simples pelo Google é possível encontrar uma série de relatos, artigos, listas, dentre outros materiais tratando sobre o tema, o Lado Bi  traduziu um artigo do tumblr da revista Revolutionary que lista o erros mais comuns nos relacionamentos gays, o ChilliWiki publicou uma matéria em que expõe 05 razões que explicam o porquê  de os relacionamentos gays não durarem. Caso procuremos um pouco mais, também encontraremos vídeos em canais no Youtube tratando do tema, posicionando-se favorável ou contrariamente a tal "constatação".
A questão da duração de relacionamentos precisa ser drasticamente problematizada. A nós, parece fazer pouco sentido, primeiramente, debater o quanto um relacionamento deve durar para ser considerado estável, ou mesmo utilizar um tipo de relacionamento como parâmetro, no caso heterossexual, para padronizar ou balizar os outros tipos possíveis, na verdade fazer isso é uma forma de reproduzir ainda mais preconceito.
Muito se fala e em diversos meios, que os homens gays não conseguem se firmar em relacionamentos por diversas características peculiares do sexo biológico masculino, características essas bastante problemáticas. Fala-se que homens tem uma quantidade explosiva de hormônios que os fazem ter um desejo sexual "astronomicamente" maior em relação às mulheres; que homens não conseguem manter-se fiéis, por mais que gostem verdadeiramente de suas/seus parceirxs; que gays são demasiadamente promíscuos e hipersexualizados para relacionamentos longos ou monogâmicos, não que a monogamia seja o modelo ideal ou necessário, longe disso; que a disponibilidade e facilidade de encontros casuais entre homens superam a possibilidade de um relacionamento estável; que os modelos estruturados que prendem heterossexuais em relacionamentos não existem para os gays, dentre tantas outras justificativas e argumentações problemáticas, no mínimo, que já ouvimos ou lemos por aí.
Em primeiro lugar é preciso esclarecer que relacionamentos são um projeto que envolve duas ou mais pessoas e que dificilmente haverão receitas ou modelos de sucesso a serem seguidos, pois cada individuo responde de maneira diferente na circunstância de um envolvimento afetivo, então, esqueça tudo que você aprendeu nos contos de fada, na novela das oito que agora é das nove, mas começa nove e meia quase dez, ou leu nos testes das revistas "teen's" que ensinavam como agarrar o "bofe" em cinco passos infalíveis ou detectavam qual integrante do "Backstreet Boys" e agora do "One Direction" mais combinava/combina com você.
Estar em um relacionamento envolve uma série de variáveis e disposições de ambas as partes, um bom sinônimo para relacionamento é a cessão, pois antes do amor, companheirismo, paciência, respeito e empatia, os envolvidos deverão estar dispostos a cederem em algumas circunstâncias, senão, os pontos de discórdia tornar-se-ão maiores que qualquer coisa boa que exista.
A nossa sociedade heterormativa instituiu ao longo de séculos o ideal de relacionamento e constituiu-se sob o preceito da indestrutibilidade da família a qualquer preço, você que nos lê, provavelmente conhece ou já ficou sabendo de determinado casal heterossexual que já não tem uma vida efetivamente conjugal, mas que por diversas circunstâncias não conseguem colocar fim a uma relação que já está acabada há tempos, ou mesmo de casais que traem ou são traídos, muitas vezes, de forma clara; dizer que um relacionamento desse tipo é duradouro ou usá-lo como forma de comparação é, indiscutivelmente, um equívoco.
Falar que relacionamentos gays não duram ou que homens gays são promíscuos e hipersexualizados (O que é promiscuidade mesmo?), é o mesmo que dizer que todas as relações heterossexuais são perfeitas, duradouras e baseadas no respeito mútuo, o que está bem longe de ser verdade. É preciso o entendimento de que o ser humano engana, ludibria, desrespeita, mas que também ama, espera e pode ser fiel, sem com isso generalizar a humanidade, pois já sabemos, ou ao menos deveríamos saber, que generalizações precisam ser usadas com grande cautela.
  Há pesquisas e artigos que desmistificam a crença popular de que os homens têm um desejo sexual superior ao das mulheres, a grande verdade é que por séculos as mulheres foram e ainda são reprimidas sexualmente, elas não podem falar, desejar ou pensar em sexo. O sexo para as mulheres está amplamente relacionado a algo sujo e errado, tanto que os xingamentos destinados a elas, na maioria das vezes, estão ligados ao sexo, além disso, mulheres passam pela menopausa, momento de mudanças hormonais e de queda brusca do apetite sexual, fase não vivida pelo homem. Esses fatores, dentre tantos outros servem de argumento a tese do maior desejo por parte dos homens, que também serve para justificar o fato de que eles precisam buscar satisfação na rua, já que têm necessidades físicas e hormonais astronômicas.
Perceba tratar-se de construções sociais, poucas das quais têm verdadeiro respaldo científico, têm o mesmo fundamento e objetivo do tipo de construção que vai dizer que mulheres amadurecem mais cedo que homens, fornecendo a justificativa ética e moral para que homens mais velhos possam relacionar-se com mulheres mais jovens ou mesmo muito mais jovens sem as condenações que ocorrem, por exemplo, quando é a mulher que se envolve com um rapaz mais novo
São  questões amplas que perpassam qualquer tipo de relacionamento, os dados que podem dizer sobre a durabilidade dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo ainda são escassos, talvez no futuro tenhamos alguma medida. O que precisamos entender é que as pessoas estão tornando-se mais conscientes e coerentes, estão menos dispostas a sofrer em relações abusivas e mortas na prática. Não devemos confundir liberdade e direito a seguir os caminhos que acreditamos ser melhores, com instabilidade ou falta de capacidade em manter-se em um relacionamento, aberto ou fechado. Mulheres e homens podem ter apetite sexuais variados, tal característica não está, necessariamente, ligada ao sexo biológico.
Ao refletir, percebemos o quanto estas afirmações e pensamentos são machistas, o homem privilegia-se a todo momento, ele pode estar com quem quiser dentro e fora de seu relacionamento, caso ele esteja em um. Ao longo dos anos o discurso que sustenta algumas crenças que, por vezes, parecem tornar-se verdades inquestionáveis, são fruto justamente do motor que pretende a todo momento subjugar determinadas pessoas na sociedade.
Precisamos falar e fazer reflexões mais profundas sobre a homossexualidade, a bissexualidade, sobre os relacionamentos e sair do terreno do senso comum ou da mania em tomar padrões heterossexuais como tábua rasa de comparação. Relacionamentos gays não duram menos ou mais. Quando o assunto é relacionamento e sua durabilidade, precisamos ter certeza de apenas uma coisa: Um Relacionamento, seja ele qual for, deve durar o tempo que tiver de durar, enquanto for bom e saudável para os envolvidos.