quarta-feira, 23 de março de 2016

Relacionamento I

 Você já ouviu alguém dizer que relacionamentos gays não duram? Que homens são promíscuos e sexualizados demais para viverem relacionamentos estáveis, monogâmicos ou não? Há diversos discursos dentro e fora do meio LGBT tentando sustentar e reproduzir tal visão. Vamos falar sobre isso? Será que relacionamentos gays são, naturalmente, inviáveis?

Os Instáveis Relacionamentos Gays

Adapatado: Image courtesy of Simon Howden at FreeDigitalPhotos.net

Há uma ideia, equivocada a nosso ver, que rodeia o imaginário de  diversas pessoas, inclusive homossexuais, trata-se de um constatação duvidosa dizendo respeito aos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, especialmente entre homens, a de que esse tipo de relação não tem futuro e de que está, inevitavelmente, fadada ao fracasso.
Em busca simples pelo Google é possível encontrar uma série de relatos, artigos, listas, dentre outros materiais tratando sobre o tema, o Lado Bi  traduziu um artigo do tumblr da revista Revolutionary que lista o erros mais comuns nos relacionamentos gays, o ChilliWiki publicou uma matéria em que expõe 05 razões que explicam o porquê  de os relacionamentos gays não durarem. Caso procuremos um pouco mais, também encontraremos vídeos em canais no Youtube tratando do tema, posicionando-se favorável ou contrariamente a tal "constatação".
A questão da duração de relacionamentos precisa ser drasticamente problematizada. A nós, parece fazer pouco sentido, primeiramente, debater o quanto um relacionamento deve durar para ser considerado estável, ou mesmo utilizar um tipo de relacionamento como parâmetro, no caso heterossexual, para padronizar ou balizar os outros tipos possíveis, na verdade fazer isso é uma forma de reproduzir ainda mais preconceito.
Muito se fala e em diversos meios, que os homens gays não conseguem se firmar em relacionamentos por diversas características peculiares do sexo biológico masculino, características essas bastante problemáticas. Fala-se que homens tem uma quantidade explosiva de hormônios que os fazem ter um desejo sexual "astronomicamente" maior em relação às mulheres; que homens não conseguem manter-se fiéis, por mais que gostem verdadeiramente de suas/seus parceirxs; que gays são demasiadamente promíscuos e hipersexualizados para relacionamentos longos ou monogâmicos, não que a monogamia seja o modelo ideal ou necessário, longe disso; que a disponibilidade e facilidade de encontros casuais entre homens superam a possibilidade de um relacionamento estável; que os modelos estruturados que prendem heterossexuais em relacionamentos não existem para os gays, dentre tantas outras justificativas e argumentações problemáticas, no mínimo, que já ouvimos ou lemos por aí.
Em primeiro lugar é preciso esclarecer que relacionamentos são um projeto que envolve duas ou mais pessoas e que dificilmente haverá receitas ou modelos de sucesso a serem seguidos, pois cada individuo responde de maneira diferente na circunstância de um envolvimento afetivo, então, esqueça tudo que você aprendeu nos contos de fada, na novela das oito que agora é das nove, mas começa nove e meia quase dez, ou leu nos testes das revistas "teen's" que ensinavam como agarrar o "bofe" em cinco passos infalíveis ou detectavam qual integrante do "Backstreet Boys" e agora do "One Direction" mais combinava/combina com você.
Estar em um relacionamento envolve uma série de variáveis e disposições de ambas as partes, um bom sinônimo para relacionamento é a cessão, pois antes do amor, companheirismo, paciência, respeito e empatia, os envolvidos deverão estar dispostos a cederem em algumas circunstâncias, senão, os pontos de discórdia tornar-se-ão maiores que qualquer coisa boa que exista.
A nossa sociedade heterormativa instituiu ao longo de séculos o ideal de relacionamento e constituiu-se sob o preceito da indestrutibilidade da família a qualquer preço, você que nos lê, provavelmente conhece ou já ficou sabendo de determinado casal heterossexual que já não tem uma vida efetivamente conjugal, mas que por diversas circunstâncias não conseguem colocar fim a uma relação que já está acabada há tempos, ou mesmo de casais que traem ou são traídos, muitas vezes, de forma clara; dizer que um relacionamento desse tipo é duradouro ou usá-lo como forma de comparação é, indiscutivelmente, um equívoco.
Falar que relacionamentos gays não duram ou que homens gays são promíscuos e hipersexualizados (O que é promiscuidade mesmo?), é o mesmo que dizer que todas as relações heterossexuais são perfeitas, duradouras e baseadas no respeito mútuo, o que está bem longe de ser verdade. É preciso o entendimento de que o ser humano engana, ludibria, desrespeita, mas que também ama, espera e pode ser fiel, sem com isso generalizar a humanidade, pois já sabemos, ou ao menos deveríamos saber, que generalizações precisam ser usadas com grande cautela.
  Há pesquisas e artigos que desmistificam a crença popular de que os homens têm um desejo sexual superior ao das mulheres, a grande verdade é que por séculos as mulheres foram e ainda são reprimidas sexualmente, elas não podem falar, desejar ou pensar em sexo. O sexo para as mulheres está amplamente relacionado a algo sujo e errado, tanto que os xingamentos destinados a elas, na maioria das vezes, estão ligados ao sexo, além disso, mulheres passam pela menopausa, momento de mudanças hormonais e de queda brusca do apetite sexual, fase não vivida pelo homem. Esses fatores, dentre tantos outros servem de argumento a tese do maior desejo por parte dos homens, que também serve para justificar o fato de que eles precisam buscar satisfação na rua, já que têm necessidades físicas e hormonais astronômicas.
Perceba tratar-se de construções sociais, poucas das quais têm verdadeiro respaldo científico, têm o mesmo fundamento e objetivo do tipo de construção que vai dizer que mulheres amadurecem mais cedo que homens, fornecendo a justificativa ética e moral para que homens mais velhos possam relacionar-se com mulheres mais jovens ou mesmo muito mais jovens sem as condenações que ocorrem, por exemplo, quando é a mulher que se envolve com um rapaz mais novo
São  questões amplas que perpassam qualquer tipo de relacionamento, os dados que podem dizer sobre a durabilidade dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo ainda são escassos, talvez no futuro tenhamos alguma medida. O que precisamos entender é que as pessoas estão tornando-se mais conscientes e coerentes, estão menos dispostas a sofrer em relações abusivas e mortas na prática. Não devemos confundir liberdade e direito a seguir os caminhos que acreditamos ser melhores, com instabilidade ou falta de capacidade em manter-se em um relacionamento, aberto ou fechado. Mulheres e homens podem ter apetite sexuais variados, tal característica não está, necessariamente, ligada ao sexo biológico.
Ao refletir, percebemos o quanto estas afirmações e pensamentos são machistas, o homem privilegia-se a todo momento, ele pode estar com quem quiser dentro e fora de seu relacionamento, caso ele esteja em um. Ao longo dos anos o discurso que sustenta algumas crenças que, por vezes, parecem tornar-se verdades inquestionáveis, são fruto justamente do motor que pretende a todo momento subjugar determinadas pessoas na sociedade.
Precisamos falar e fazer reflexões mais profundas sobre a homossexualidade, a bissexualidade, sobre os relacionamentos e sair do terreno do senso comum ou da mania em tomar padrões heterossexuais como tábua rasa de comparação. Relacionamentos gays não duram menos ou mais. Quando o assunto é relacionamento e sua durabilidade, precisamos ter certeza de apenas uma coisa: Um Relacionamento, seja ele qual for, deve durar o tempo que tiver de durar, enquanto for bom e saudável para os envolvidos.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Mulheres

Durante esta semana o Alternnativa deu espaço para que mulheres dissessem a nós "O que é ser Mulher?". Maíra, Talita, Fran, Karina e Tatiana, compartilharam conosco um pouco de sua experiência e luta enquanto mulheres. Aproveitamos para agradecê-las imensamente por nos ter prestigiado com seus textos, pensamentos, vídeos e dizer, longe dos clichês da moda, que todo dia é dia de Mulher sim, todo dia tem de ser dedicado à luta contra o machismo, contra a misoginia, o patriarcado, todo dia precisa ser uma busca incessante por sororidade. Para fechar esta primeira série especial aqui no Alternnativa, chamamos Tatiana Venâncio para nos responder a pergunta que abriu nossa semana: O que é ser Mulher?
Tatiana é negra, tem 29 anos e mora na zona Sul da capital. Na contramão do racismo e dos descaminhos que as mulheres negras ainda percorrem em nossa sociedade, graduou-se em Biologia por uma instituição de renome, é mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e pretende ingressar no programa de doutorado da Faculdade de Educação, da mesma universidade.
Tatiana faz questão de afastar o discurso da meritocracia para falar de sua trajetória acadêmica e pontua que sua visão de mundo, especialmente em relação à mulher, mudou sensivelmente nos últimos anos.

"O que é ser Mulher?" por Tatiana Venâncio

Image courtesy of africa at FreeDigitalPhotos.net

"Muito difícil expressar com palavras o que é ser mulher. Se essa pergunta tivesse sido feita há 15 anos minha resposta seria completamente diferente. Até minha adolescência eu acreditava que as mulheres tinham de desempenhar somente algumas funções na sociedade, acreditava realmente que algumas profissões eram “destinadas” às mulheres e outras “destinadas” aos homens.
Minha visão com relação ao meu gênero era extremamente limitada. Eu via os homens ao meu redor trabalhando fora e não fazendo quase nenhum trabalho doméstico e as mulheres cuidando de todos os afazeres da casa trabalhando fora ou não. Havia uma divisão muita clara.
Hoje estou rodeada de mulheres fortes que trabalham nas mais diversas profissões. Que lutam por melhores cargos, por melhores condições de vida. Que têm muitas outras preocupações sociais além de casamento e filhos. Hoje sei que ser mulher é a convivência diária com dores e deleites, vulnerabilidade e força, medo e coragem. É superação diária. É ter atenção redobrada na rua, sempre que chega a noite após o trabalho ou após a cerveja com as amigas. É pensar que o taxista ou cara do tinder pode ser um estuprador serial killer. É saber que se corre mais riscos do que um homem ao viajar sozinha. É ter de explicar a um homem a diferença entre assédio e elogio.
Hoje sei que as mulheres ainda são desrespeitadas em seu ambiente de trabalho, sei que elas ganham menos que os homens e que a cada segundo, milhares de mulheres são violentadas no mundo todo. Hoje eu sei que as mulheres negras são o grupo em maior desvantagem sob todas as perspectivas sociais, ao comparar-se às mulheres brancas e aos homens em geral. Mas sobretudo, hoje sei que qualquer mulher pode fazer qualquer coisa que se dispuser a fazer."""

quinta-feira, 10 de março de 2016

Mulheres

Hoje quem diz "O que  ser Mulher?" é Karina Fasson, com 27 anos é mestranda em Sociologia. Karina que já é socióloga, deixou para trás uma carreira na iniciativa privada para dedicar-se à dissertação de mestrado em que trata de relações raciais no ambiente escolar. Para ela o discurso feminista precisa ser uma prática cotidiana.

"O que é ser Mulher?" por Karina Fasson 



"Ser mulher anda difícil: uma luta constante e cotidiana. Pra mim, o pior dos machismos é aquele dissimulado, que, por vezes, demoramos a entender. O namorado que parece tratar bem e apoiar, mas na primeira demonstração de força da namorada, a coloca pra baixo e a diminui por não conseguir ter a mesma coragem que ela diante da vida. O cara com uma vida pública lutando por pautas progressistas, mas que trata mulher como objeto. O outro cara que compra livro sobre feminismo, mas também trata mulher como objeto. A menina que se diz feminista, fala que as mulheres tem que se unir e que a culpa é sempre dos homens, mas que, quando vai ver, está disputando homem por aí como se as mulheres fossem inimigas.
Espero e luto todos os dias para que ser mulher signifique mais igualdade e respeito por parte dos homens, e mais sororidade por parte das mulheres."        

quarta-feira, 9 de março de 2016

Mulheres

"O que é ser Mulher?" por Fran Santos

Para responder "O que é ser Mulher?", Fan Santos de 29 anos, que também é YouTuber, gravou um vídeo para compartilhar aqui no Alternnativa. Analista de pesquisa, trabalha há mais de dez anos na mesma empresa, é esposa, mãe, filha e irmã. Conheceu seu marido ainda na adolescência, por quem se apaixonou.
Fran resume o significado de ser mulher em uma palavra: Guerreira.       
                         
                        Acesse o canal da Fran clicando aqui.

terça-feira, 8 de março de 2016

Mulheres

Perguntamos "O que é ser Mulher?" à Talita Amaro, paulistana de 25 anos, ex-moradora da Cidade Tiradentes, já frequentou os cursos de História e Ciências Sociais, porém os interrompeu para cursar medicina com bolsa integral. Desde 2011 está a frente da coordenação geral do Cursinho Mafalda, projeto social que oferece anualmente, sem mensalidade, mais de 1.000 vagas distribuídas entre cursos de idiomas, pré-universitário, EJA - Enem, etc.  
Talita não consegue falar sobre Mulher, sem recorrer as diversas referências que teve ao longo da vida, referências as quais a fizeram ser a Mulher que é hoje.

"O que é ser Mulher"? por Talita Amaro 

FreeImages.com/Marcelo Moura

"Atendendo ao pedido de um amigo de longa data, escrevo aqui, o que é ser mulher em minha experiência pessoal.
Minha vida sempre foi bastante feminina, no sentido de ter sido sempre acompanhada por mulheres. Não por eu ser lésbica, mas porque minhas grandes referências são mulheres. Tanto nas artes, na academia quanto na vida cotidiana.
Sou de uma família que tem a presença forte das mulheres. Minha mãe é uma mulher forte, baseio minha força no que ela reflete. Minha avó era uma mulher muito especial, pois tinha espiritualidade aguçada, o que sempre me fez ser um pouco mais conectada ao que há de paralelo ao mundo material, embora invisível. Minhas professoras de nível básico, desde a pré-escola até o Ensino Médio, sempre me acompanharam, impulsionaram e forneceram a base educativa para que eu ingressasse no ensino superior. Fui uma aluna sortuda.
Ao ingressar na universidade e iniciar a prática política, tive muitas mulheres ao meu lado, muitas me ensinando sobre militância, muitas dando exemplos pelos atos e muitas construindo reflexões que mudaram meu olhar para diversas questões. O que, por um lado, me ajudou, pois hoje sou menos boçal do que já fui, mas que por outro lado me atrapalhou: pois estou cada vez menos sociável – ao passo que não tenho facilidade em conviver com pessoas reacionárias. Em minha vida atual tenho uma mulher ao meu lado, uma companheira, inteligente, linda, amável e muitos outros adjetivos difíceis de dizer em um texto. Ela me ajudou, me lapidou, me ensinou e ensina a ser alguém cada vez mais adequada ao mundo que desejamos colaborar para construir.
Enfim, não sei se respondi a questão proposta, mas para me falar mulher, tive de recorrer a muitas lembranças e recordações e dizer a partir de quais mulheres me tornei quem sou hoje."

segunda-feira, 7 de março de 2016

Mulheres

                  Mulheres por Mulheres

Image courtesy of imagerymajestic at FreeDigitalPhotos.net

Nesta semana é comemorado o Dia Internacional da Mulher, nós do Alternnativa não poderíamos deixar esta data passar em branco de forma nenhuma. Nós que aqui tentamos construir reflexões contrárias ao preconceito, em uma luta pela não opressão às minorias e grupos historicamente segregados na sociedade.
Que façamos deste dia um momento de reflexão que se projete para o ano todo, que a cada dia, mulheres alcancem igualdade e liberdade, que o machismo não mais cale, violente e asfixie as vozes que durante centenas de anos permaneceram oprimidas e silenciadas. Hoje e sempre, que a voz sejam delas, começando agora. 
O Alternnativa perguntou "O que é ser mulher?" para algumas mulheres, a resposta você acompanha aqui durante a semana.         
A primeira Mulher a nos responder é Maíra Meyer, ela é revisora e tradutora, tem 35 anos  e se considera feminista.

"O que é ser Mulher?" por Maíra Meyer

"Ser mulher é lutar pela própria visibilidade. Pela própria voz. Para que não lhe calem nunca a voz. É descobrir o significado profundo da palavra sororidade, e, sobretudo, aplicá-la na prática. Senti-la. É saber que, desde o princípio, todas nós somos irmãs. É persistir sempre na batalha, interna e em grupo, a favor de um mundo mais justo para todos os seres humanos. É reverenciar o Sagrado Feminino e andar lado a lado com a Divindade que há em cada uma de nós."