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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Machista

                             Bicha Machista
Image courtesy of franky242 at FreeDigitalPhotos.net

Este poderia ser um texto sobre como os homossexuais são afetados diariamente pelo machismo e pela heteronormatividade que ainda rege nossa vida em sociedade, palavras e frases não faltariam para dizer o quanto um homossexual é prejudicado, ameaçado e lesado cotidianamente por esse mesmo machismo.
Qualquer pessoa teria um número considerável de exemplos passíveis de serem citados aqui: homens, mulheres, gays, lésbicas, etc., mas nosso foco se trata do  machismo no interior do cotidiano gay, aquele cometido pelos próprios homossexuais, o que apesar de causar certo espanto é algo não muito incomum
Qualquer pessoa que já frequentou salas de bate papo, sites de relacionamento ou os aplicativos de "caça", já se deparou, muito provavelmente, com o tipo de cara que preza pela discrição, anonimato e o submundo de tudo que permanece as escuras, as justificativas para isso são muitas e figuram desde os que apenas não querem expor sua individualidade até os que são casados. Outra característica bastante comum "no meio" reside na preferência pelos não afetados e discretos. A primeira vista pode parecer apenas uma questão de preferência e atração, mas em boa parte há certa dose de machismo permeando tais preferências.
Seria desnecessário repetir que vivemos em uma sociedade machista e nosso processo de socialização nos incentiva a também sermos, tema de uma outra postagem (http://alternnativag.blogspot.com.br/2014/07/a-construcao-do-preconceito-nao-e.html). Entretanto, podemos desenvolver outras formas de pensar, que não a que nos é imposta, porém boa parte das pessoas não consegue se desprender facilmente de tais valores tão bem arraigados e muitas vezes confundidos com o próprio indivíduo, claro que o machismo cresce conosco, somos influenciados e afetados por ele, cabendo a nós, em especial a alguns grupos, lutar contra.
Um dos grupos que fazemos menção no parágrafo acima é, ou ao menos  deveria ser, inquestionavelmente, os homossexuais e, embora esse combate seja muito mais comum, por questões óbvias, entre as lésbicas, parece não haver um paralelo direto e bem definido entre os gays, pelo contrário, é possível enxergar a sobrevivência e permanência de atitudes e posturas machistas, também nesse meio, um paradoxo, uma abominável contradição.
Muitos gays não conseguem sair do temeroso armário, vivem as sombras de uma mentira prestes a ser revelada a qualquer instante. Fazem dele -o armário- seu maior e mais seguro suporte e  refúgio e, por saberem que nunca estão em plena segurança a ameaça da descoberta os afugenta, fazendo-os recorrer a todas as armas possíveis e capazes de protegê-los neste casulo.  Em alguns casos, ou boa parte deles, ou em todos eles, a posição machista destes indivíduos é uma forma de fortalecer o armário, dar seguridade ao esconderijo.
Para além desta questão, há ainda uma mais problemática: Trata-se dos gays que desprezam e desdenham daqueles que possuem trejeitos tipicamente femininos, muitos se referem a eles com ar pejorativo, ar semelhante aquele dispensado pelos héteros em relação aos gays de forma geral. Porque caso estas pessoas não tenha se dado conta ainda, para a sociedade normatizada não existe o "gay machão" e o "gay bichinha", existe apenas o gay e se você no interior do grupo cria essa dualidade, significa a aceitação do mesmo preconceito e das mesmas raízes machistas desta sociedade. Há uma desconstrução total e interior ao movimento LGBT, que tanto luta, tanto grita e tanto morre na batalha contra o preconceito.
Tratar com desprezo ou desdém e mais preconceito qualquer individuo não torna ninguém mais ou menos gay e esse ato deliberado de criticar alguém pelas características constituintes de sua personalidade é preconceito e pior, revestido de machismo.
Para tornar a situação um pouco mais complexa outro ponto se coloca entre os homossexuais com total relação ao machismo presente entre nós: A questão de ser ativo ou passivo, representando o que consideramos ser uma das maiores contradição entre os gays, pois parece que a relação, também machista e heteronormativa, estabelecida entre homem e mulher é trazida e adaptada para as relações entre dois homens.
A pergunta, "o que você curte?" é comum e usada com frequência entre homens, o que já infere que as vezes a preferência na cama tem preponderância em muitos relacionamentos. Mas e todo o resto? Há uma preocupação em saber de cara o rótulo (comum também nas relações entre héteros, importante lembrar) que cada um carrega, ativo, passivo, versátil   Essa atitude revela mais uma faceta do machismo entre os gays.
Dificilmente se ouve alguém dizer declaradamente que é passivo e isso não é a toa. Ser passivo consciente ou inconscientemente traz um peso negativo, um peso que poucas pessoas conseguem explicar de onde vem, porque na verdade nem mesmo elas sabem qual a origem. O adjetivo versátil serviu muito bem a muitas pessoas que não tinham a coragem de assumir sua preferência, não à toa que em um texto intitulado "O vilão do Grindr" já referenciado aqui no blog (http://wwwbarbrazil.blogspot.com.br/2014/03/o-vilao-do-grindr.html), é mencionada a seguinte frase: "Todos os ativos são versáteis e todos os versáteis são passivos". Claro que se trata de uma  generalização que requer maior análise, mas há de fato uma realidade vivida que se aproxima desta citação.
Ser passivo e assumir isso em alguns casos não é simples, pois implica na cabeça de muitas pessoas certa inferioridade em relação ao outro. Como mencionado anteriormente, as relações homossexuais parecem ser constantemente adaptadas as relações heterossexuais, sendo assim, necessariamente as pessoas precisam identificar quem é o homem e a mulher da relação; quem manda e quem obedece. Aceita-se de forma rasa e conformada, mais uma vez todo o machismo também cometido contra a mulher.
Já é um absurdo esse tipo de relação entre pessoas de sexos opostos. Já é um absurdo o machismo ainda sobreviver, mas absurdo maior é tentar transpor e tornar iguais coisas que em essência são diferentes. E mais absurdo é ter que falar em desconstrução do machismo em um meio, cujo objetivo político-social deveria ser por natureza, desconstruí-lo. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O Armário

Olá meus queridos, desta vez fiquei bastante tempo fora e não sei qual vai ser a frequência das minhas postagens por aqui. Pra quebrar o jejum, tem texto novo hoje sobre um assunto bem delicado: O Armário. Podem comentar com suas opiniões, experiências, etc., se quiserem mandar comentários por e-mail, sintam-se a vontade.

Boa Leitura!

Sobre sair do Armário
Image courtesy of pakorn at FreeDigitalPhotos.net

São milhares os endereços e textos na internet que falam sobre aceitação, autoconfiança, preconceito, etc. Talvez este seja só mais um entre tantos e, ainda assim,  escreveremos por acreditar que nunca é demais falar sobre o processo de autoaceitação, de se assumir e  das consequências boas e ruins que isto pode trazer a vida de alguém.
Quem é homossexual vive ou viveu, sem dúvida, a sombra de se assumir ou não, este questionamento persegue segue a vida de alguns por pouco tempo, de outros por muito, já para alguns outros ele nunca deixará de existir, claro que essa não é uma das escolhas mais fáceis a se fazer e tem de ser muito bem ponderada antes da decisão ser, de fato, tomada.
Ninguém escolhe ser homossexual, bissexual, transexual, etc., mas as pessoas podem escolher, infelizmente acreditamos, passar a vida se escondendo atrás de máscaras e fantasias. Por não enxergar alternativa a não ser esta, optam pelo que acreditam ser o caminho menos árduo, motivados, boa parte das vezes,  pelo medo. O medo a reação da família, dos amigos, dos colegas no trabalho ou na escola, pelo medo a reação da sociedade. Pouco importa como a pessoa sente-se, desde que o que lhe é externo continue enxergando aquilo que a sociedade quer enxergar. A preocupação maior está em responder as expectativas que o mundo despejou em nossas vidas. Algumas  vezes este mundo é representado primeiramente pela figura da nossa mãe ou pai, um tio, uma tia, depois os amigos, talvez chefes, colegas. No fim, o próprio mundo.
Lendo algumas matérias e relatos fica a impressão de que dizer que somos homossexuais é uma das coisas mais fáceis que possamos fazer. Bem, a realidade não é assim. Também não é sempre que os discursos de "vai ficar tudo bem", são verdadeiros, é preciso estar preparado para o: "Talvez nem tudo fique bem". O fato é que nós vivenciamos realidades específicas e particulares, cabendo a cada um ponderar a hora e o momento mais oportuno. Não existe a idade certa, ser muito jovem ou muito velho, ser cedo ou tarde demais, nenhum desses discursos devem influenciar nossa atitude e vontade.
Cada individuo possui formas próprias de expressar seu sentimento em diversas situações e não é possível prever as reações e consequências de atitudes, mas isto é óbvio. Ao decidir contar aos pais, ou quem quer seja, sobre os aspectos de nossa sexualidade é possível que eles o abracem e digam que nada mudará sob qualquer circunstância, é possível que mesmo antes de você começar a falar eles o envolvam  em um abraço e digam que tudo ficará bem. Entretanto, não é impossível que eles fiquem irreconhecíveis, o reprimam, digam coisas horríveis sobre você e sua orientação/condição, portanto, a decisão de se assumir tem que estar intimamente ligada a um preparo psicológico para uma resposta boa ou não.
Todas as incertezas, inseguranças, medos, entre tantos outros sentimentos que nos habitam não se dissolvem com a fatídica conversa. Pode ser que tudo esteja apenas começando ali. Muitos perdem por completo a liberdade, passam a ser vigiados, alvos de desconfiança e às vezes tudo que você é, já fez  ou ainda fará perde a importância e deixam de ser méritos seus, porque a única coisa que as pessoas irão em enxergar é o fato de ser gay, lésbica, bissexual, enfim, e isso pode vir a  anular qualquer coisa "boa" (aos olhos da sociedade) que venha de você.
A impressão é que a partir do momento em que alguém  decide revelar as pessoas ser homossexual é preciso reconstruir novamente a personalidade perante a elas, ou ao menos relembrá-las da sua. O preconceito em nossa sociedade chega a um ponto tão extremado que somos julgados por uma condição profundamente individual que não atinge de forma nenhuma a vida de quem quer que seja. Afinal de contas, o que as pessoas têm a ver com quem eu vou ou deixo de me relacionar sentimental ou fisicamente?
Alguns têm a sensação de que o que é externo muda depois que nos assumimos. De fato, pouca coisa muda, isto para não dizer que pode ser que nada mude. As pessoas, em geral, continuarão preconceituosas, machistas, mesquinhas, etc. A principal mudança não será a concepção das pessoas sobre você, mas sim, sua próprias concepções sobre você mesmo e a forma pela qual  se enxerga o mundo
A mensagem mais importante a se deixar é que o momento certo para conversar sobre sua orientação/condição sexual é aquele definido por nós, seja ele qual for. O essencial é ter segurança e jamais permitir que a sociedade que nos cerca, suplante ou diminua nossa vida, esperando que realizemos seus sonhos e suas aspirações em detrimento dos nossos.
No instante em que arrancamos nossas máscaras e abandonamos o armário, uma série de preocupações deixam de existir, uma série de outras afloram, mas o mais importante é se abrir, lutar, argumentar e mostrar que não somos motivo de vergonha sob nenhum aspecto, pelo contrário. Só assim é que dia a dia ganharemos espaço e mostraremos aquilo que tanto se luta para cristalizar na mentalidade e cotidiano das pessoas, não há nada demais em ser gay.