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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Imposições Sociais

Oi pessoal! Mais uma semana com publicação aqui no Alternnativa, não queremos criar falsas expectativas, mas ao que tudo indica iremos conseguir estabelecer nosso plano de postar material a cada quinze dias, sempre às quartas-feiras.
Hoje trazemos um texto que discute mais uma vez as imposições sociais ligadas ao gênero e à sexualidade, o texto resgata algumas discussões já feitas em outros momentos aqui no blog e avança um pouco mais, para abrir espaço às futuras reflexões que faremos.
Gênero e Sexualidade como Imposições Sociais

Imagem: www.sertaonahora.com.br

Ao nascer chegamos a um mundo e a uma sociedade que já estão edificados, nosso papel de construção e mudança é, a princípio, restrito, porque uma gigante parte dos elementos que farão ou deveriam fazer parte de nossa personalidade já estão dados e pouco poderá ser modificado.
Dois destes elementos dizem respeito a nossa sexualidade e ao nosso gênero, os que nascem com vagina são socialmente mulheres, que devem se relacionar amorosa e sexualmente com homens; paralelo similar vale para os que nascem com pênis, socialmente homens, devendo relacionar-se com mulheres. São elementos que aos olhos de nossa sociedade heteronormativa são tão naturais e inatos quanto nossas digitais.
 O processo social do qual somos herdeiros não permite divergência, alternativa ou mudança, entretanto, o mesmo processo não leva em conta que o ser humano é um complexo inexplicável de sensações, sentimentos, pensamentos e contraditoriedades, tornando impossível a simples determinação de sua sexualidade pelo outro, pela sociedade ou ainda por uma parte isolada de seu corpo físico.
O homossexual, o trans, o não-binário (temos consciência de se tratar de características ligadas a orientação sexual e a identidade de gênero)  sentem-se diferentes desde muito cedo, não à toa, é comum ouvirmos coisas do tipo:

 - Ele nunca gostou de brincar com carros, preferia as bonecas.
 - Quando ela era pequena vivia no meio dos "moleques", odiava laços no cabelo, brincos, vestidos, ou coisas assim.
-  Ah, ele era diferente desde pequeno.

 A diferença emerge no momento em que o indivíduo não consegue se ver enquadrado nos modelos sociais institucionalizados, os quais ele deveria incorporar. Distanciando-nos de qualquer reducionismo simplista é preciso deixar muito bem claro que nem sempre a pessoa homossexual não se identificará com os elementos atribuídos socialmente ao gênero em que ela foi designada ao nascer. Há mulheres cis lésbicas que brincaram com bonecas, usaram e usam roupas socialmente tidas como femininas, ou homens cis gays que brincaram e se identificaram/identificam com os elementos atribuídos, socialmente, a ele, como o futebol, por exemplo, isso só afirma a complexidade e o quão é difícil enquadrar as pessoas, de forma ampla, em classificações rígidas e cristalizadas. Estamos muito longe de ser elementos estáticos e classificáveis, tais quais os que encontram-se organizados na tabela periódica.
O horizonte que devemos vislumbrar e lutar para que a sociedade também o vislumbre é aquele que permite a liberdade de vivência individual, não precisamos, na verdade não devemos partir dos princípios que determinam as formas como cada indivíduo deve portar-se. O caminho natural poderia ser o da livre descoberta, da livre aceitação e do livre reconhecimento de si mesmo. Antes de podermos entender quem somos, nossos médicos, nossos pais, nossa religião, nossa escola e nossa sociedade já nos definiu, já nos sonhou, planejou e nos realizou. Em última instância já somos a realização do sonho do outro, o que torna bastante problemático o momento em que decidimos ter nossos próprios sonhos e seguir nossa própria identidade, especialmente quando tais sonhos e identidade estão muito distantes daquilo que foi esperado de nós.
A questão do sonho dos outros é extremamente complicada e pode gerar uma série de conflitos e problemas, não só no âmbito da sexualidade e gênero. Não é incomum a problemática que se estabelece entre pais e filhxs quando, por exemplo, há uma discordância em relação ao curso superior que estes irão escolher, por exemplo.  Se levarmos o mesmo raciocínio para o campo da sexualidade e do gênero, temos uma ideia do quão pode ser difícil e trágico o entendimento de tal situação, justamente porque nossa sociedade não admite sob hipótese alguma tais possibilidades. Infelizmente nos deparamos com esta intolerância e falta de entendimento na figura de nossos pais, familiares, amigos, colegas, etc., e o processo de entendimento ainda é, em boa parte dos casos, doloroso e traumático.
Felizmente o mundo tem caminhado por uma estrada que tem aberto diálogos, maiores entendimentos, possibilidades de reflexão mais profunda e hoje, apesar de diversas limitações promovidas pelo pensamento conservador, intolerante e preconceituoso, conseguimos promover debates acerca da sexualidade, do gênero, das identidades e não há dúvida de que o debate hoje no século XXI, está bem distante do vivenciado na década de 1950 ou 1970, entretanto, ainda temos muito a avançar e construir, esta luta não pode parar, precisa permanecer firme, pelo menos até o dia em que ninguém morra ou se fira por ser lésbica, trans ou gay. Até o dia em que entender-se homossexual ou trans não signifique trilhar um caminho árduo, repleto de pedras, obstáculos, agressões, assassinatos ou mesmo suicídio, como infelizmente ainda ocorre.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Padrões Sociais

Hoje não, Sociedade!
Image courtesy of lekkyjustdoit at FreeDigitalPhotos.net

Há em nosso mundo uma série de condicionantes para a vida em sociedade. Desde muito cedo, a vivência e o processo de socialização, do qual também somos fruto, incute em nossa mente um sem número de desejos e aspirações, muitas vezes, estranhos a nós.
Para aqueles que não conseguem escapar ao rolo opressor da cultura ocidental, machista, branca, heteronormativa, e acrescentamos também romântica, solidificam-se na mente e no imaginário alguns pré-conceitos, idealizações e sonhos, que podem não ser necessariamente da pessoa em questão, mas antes os sonhos que a sociedade, de maneira ampla, sonhou para e por ela.
O amor romântico, o casal do comercial de margarina, dos finais da novela das seis, dos filmes holllywodianos e tudo mais que está embutido nesse contexto é a nosso ver, um dos produtos mais bem sucedidos dessa cultura, tão bem difundido e amarrado a necessidade individual e social de cada pessoa inserida nesse mundo, que a torna automaticamente um ser estranho, problemático e, principalmente, infeliz, caso ela não consiga alcançar a maior promessa histórica de felicidade: o amor. Amor cristalizado na figura do outro, o qual traz consigo uma das maiores buscas do ser humano contemporâneo: A felicidade e felicidade para sempre.
Afinal, amar é mesmo para todos? A felicidade está no amor? Felizes para sempre não seria apenas uma criação ilusória de fuga, difundida pelos encantadores e encantados contos de fadas, criados apenas como mais um mecanismo de controle social e/ou reprodução do capital sob diversos aspectos?
Um questionamento no mínimo complexo e problemático, para não dizer descabido, pois parece não haver necessidade nenhuma de discutir os mecanismos capazes de trazer a felicidade, menos ainda se estes mecanismos se aplicam a todos de maneira uniforme, já que parece ser universalmente aceito que a felicidade está mesmo no amor e todos precisam encontrar sua metade, senão a tristeza e a busca permanentes parecem ser o destino desses. Nossa visão e percepção de mundo é permeada pelos valores sociais e culturais da sociedade em que vivemos, a busca pelo amor romântico e o condicionamento da felicidade a ele é um desses valores.
A busca pelo amor se torna objetivo de muitos, entretanto, é preciso ter em mente que cada pessoa pode e deve ter o direito de empreender as próprias buscas e estabelecer os próprios objetivos de vida, sem isso significar uma frustração ou motivo para dizer que determinada pessoa jamais será feliz por não ter encontrado alguém para partilhar a vida, talvez esse objetivo nunca tenha passado pela cabeça dela.
Determinadas cobranças parecem nunca acabar: E xs namoradxs? E o casamento? E xs filhxs? Cada pessoa tem (ou, ao menos, deveria ter) o direito de estabelecer as próprias prioridades. Entre as quais, namorar, casar-se ou mesmo ter filhxs pode não ter lugar. A infelicidade não deve estar na ausência do outro, porque cada um precisa ser capaz de ser feliz sozinho primeiro, apenas assim, uma segunda vida pode fazer sentido.
Certos padrões e verdades precisam ser questionados, pois a vida não deve seguir rígidas linhas ou os desejos que outros depositaram sobre nós. A construção de preconceitos segue a mesma lógica, pois esse é gerado pelo estranhamento aquilo que não segue um determinado padrão esperado. Uma mulher que deliberadamente decide não se casar ou ter filhxs, gera esse estranhamento porque "é natural à mulher que ela seja mãe", percebam que o mesmo estranhamento não ocorre com a mesma dimensão em relação ao homem, entretanto, caso ele, por qualquer motivo que seja, não estabelecer um relacionamento com uma mulher (caso ele seja hétero), o questionamento será: "Tal fulano está sozinho nessa idade, será que é gay?".
Dificilmente o pensamento em relação a esses indivíduos irá centrar-se na hipótese de que eles possam ter escolhido livremente não ter ninguém ao lado, em vez de significar, necessariamente, que não houve pessoas dispostas a amá-los ou vice-versa.
Mais uma vez estamos em uma questão trabalhada em outros momentos aqui, trata-se da liberdade individual em poder escolher como caminhar, como viver, sem os pré-julgamentos ou necessidades sociais para com nossas vidas. Cada indivíduo precisa ter a liberdade de fazer suas escolhas, sejam elas quais forem. Namorar, noivar, casar, ter filhos, enfim, cada uma dessas etapas não são uma necessidade universal de felicidade. Cada um encontra, ou ao menos deveria encontrar, a felicidade à sua maneira.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Machista

                             Bicha Machista
Image courtesy of franky242 at FreeDigitalPhotos.net

Este poderia ser um texto sobre como os homossexuais são afetados diariamente pelo machismo e pela heteronormatividade que ainda rege nossa vida em sociedade, palavras e frases não faltariam para dizer o quanto um homossexual é prejudicado, ameaçado e lesado cotidianamente por esse mesmo machismo.
Qualquer pessoa teria um número considerável de exemplos passíveis de serem citados aqui: homens, mulheres, gays, lésbicas, etc., mas nosso foco se trata do  machismo no interior do cotidiano gay, aquele cometido pelos próprios homossexuais, o que apesar de causar certo espanto é algo não muito incomum
Qualquer pessoa que já frequentou salas de bate papo, sites de relacionamento ou os aplicativos de "caça", já se deparou, muito provavelmente, com o tipo de cara que preza pela discrição, anonimato e o submundo de tudo que permanece as escuras, as justificativas para isso são muitas e figuram desde os que apenas não querem expor sua individualidade até os que são casados. Outra característica bastante comum "no meio" reside na preferência pelos não afetados e discretos. A primeira vista pode parecer apenas uma questão de preferência e atração, mas em boa parte há certa dose de machismo permeando tais preferências.
Seria desnecessário repetir que vivemos em uma sociedade machista e nosso processo de socialização nos incentiva a também sermos, tema de uma outra postagem (http://alternnativag.blogspot.com.br/2014/07/a-construcao-do-preconceito-nao-e.html). Entretanto, podemos desenvolver outras formas de pensar, que não a que nos é imposta, porém boa parte das pessoas não consegue se desprender facilmente de tais valores tão bem arraigados e muitas vezes confundidos com o próprio indivíduo, claro que o machismo cresce conosco, somos influenciados e afetados por ele, cabendo a nós, em especial a alguns grupos, lutar contra.
Um dos grupos que fazemos menção no parágrafo acima é, ou ao menos  deveria ser, inquestionavelmente, os homossexuais e, embora esse combate seja muito mais comum, por questões óbvias, entre as lésbicas, parece não haver um paralelo direto e bem definido entre os gays, pelo contrário, é possível enxergar a sobrevivência e permanência de atitudes e posturas machistas, também nesse meio, um paradoxo, uma abominável contradição.
Muitos gays não conseguem sair do temeroso armário, vivem as sombras de uma mentira prestes a ser revelada a qualquer instante. Fazem dele -o armário- seu maior e mais seguro suporte e  refúgio e, por saberem que nunca estão em plena segurança a ameaça da descoberta os afugenta, fazendo-os recorrer a todas as armas possíveis e capazes de protegê-los neste casulo.  Em alguns casos, ou boa parte deles, ou em todos eles, a posição machista destes indivíduos é uma forma de fortalecer o armário, dar seguridade ao esconderijo.
Para além desta questão, há ainda uma mais problemática: Trata-se dos gays que desprezam e desdenham daqueles que possuem trejeitos tipicamente femininos, muitos se referem a eles com ar pejorativo, ar semelhante aquele dispensado pelos héteros em relação aos gays de forma geral. Porque caso estas pessoas não tenha se dado conta ainda, para a sociedade normatizada não existe o "gay machão" e o "gay bichinha", existe apenas o gay e se você no interior do grupo cria essa dualidade, significa a aceitação do mesmo preconceito e das mesmas raízes machistas desta sociedade. Há uma desconstrução total e interior ao movimento LGBT, que tanto luta, tanto grita e tanto morre na batalha contra o preconceito.
Tratar com desprezo ou desdém e mais preconceito qualquer individuo não torna ninguém mais ou menos gay e esse ato deliberado de criticar alguém pelas características constituintes de sua personalidade é preconceito e pior, revestido de machismo.
Para tornar a situação um pouco mais complexa outro ponto se coloca entre os homossexuais com total relação ao machismo presente entre nós: A questão de ser ativo ou passivo, representando o que consideramos ser uma das maiores contradição entre os gays, pois parece que a relação, também machista e heteronormativa, estabelecida entre homem e mulher é trazida e adaptada para as relações entre dois homens.
A pergunta, "o que você curte?" é comum e usada com frequência entre homens, o que já infere que as vezes a preferência na cama tem preponderância em muitos relacionamentos. Mas e todo o resto? Há uma preocupação em saber de cara o rótulo (comum também nas relações entre héteros, importante lembrar) que cada um carrega, ativo, passivo, versátil   Essa atitude revela mais uma faceta do machismo entre os gays.
Dificilmente se ouve alguém dizer declaradamente que é passivo e isso não é a toa. Ser passivo consciente ou inconscientemente traz um peso negativo, um peso que poucas pessoas conseguem explicar de onde vem, porque na verdade nem mesmo elas sabem qual a origem. O adjetivo versátil serviu muito bem a muitas pessoas que não tinham a coragem de assumir sua preferência, não à toa que em um texto intitulado "O vilão do Grindr" já referenciado aqui no blog (http://wwwbarbrazil.blogspot.com.br/2014/03/o-vilao-do-grindr.html), é mencionada a seguinte frase: "Todos os ativos são versáteis e todos os versáteis são passivos". Claro que se trata de uma  generalização que requer maior análise, mas há de fato uma realidade vivida que se aproxima desta citação.
Ser passivo e assumir isso em alguns casos não é simples, pois implica na cabeça de muitas pessoas certa inferioridade em relação ao outro. Como mencionado anteriormente, as relações homossexuais parecem ser constantemente adaptadas as relações heterossexuais, sendo assim, necessariamente as pessoas precisam identificar quem é o homem e a mulher da relação; quem manda e quem obedece. Aceita-se de forma rasa e conformada, mais uma vez todo o machismo também cometido contra a mulher.
Já é um absurdo esse tipo de relação entre pessoas de sexos opostos. Já é um absurdo o machismo ainda sobreviver, mas absurdo maior é tentar transpor e tornar iguais coisas que em essência são diferentes. E mais absurdo é ter que falar em desconstrução do machismo em um meio, cujo objetivo político-social deveria ser por natureza, desconstruí-lo. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O Armário

Olá meus queridos, desta vez fiquei bastante tempo fora e não sei qual vai ser a frequência das minhas postagens por aqui. Pra quebrar o jejum, tem texto novo hoje sobre um assunto bem delicado: O Armário. Podem comentar com suas opiniões, experiências, etc., se quiserem mandar comentários por e-mail, sintam-se a vontade.

Boa Leitura!

Sobre sair do Armário
Image courtesy of pakorn at FreeDigitalPhotos.net

São milhares os endereços e textos na internet que falam sobre aceitação, autoconfiança, preconceito, etc. Talvez este seja só mais um entre tantos e, ainda assim,  escreveremos por acreditar que nunca é demais falar sobre o processo de autoaceitação, de se assumir e  das consequências boas e ruins que isto pode trazer a vida de alguém.
Quem é homossexual vive ou viveu, sem dúvida, a sombra de se assumir ou não, este questionamento persegue segue a vida de alguns por pouco tempo, de outros por muito, já para alguns outros ele nunca deixará de existir, claro que essa não é uma das escolhas mais fáceis a se fazer e tem de ser muito bem ponderada antes da decisão ser, de fato, tomada.
Ninguém escolhe ser homossexual, bissexual, transexual, etc., mas as pessoas podem escolher, infelizmente acreditamos, passar a vida se escondendo atrás de máscaras e fantasias. Por não enxergar alternativa a não ser esta, optam pelo que acreditam ser o caminho menos árduo, motivados, boa parte das vezes,  pelo medo. O medo a reação da família, dos amigos, dos colegas no trabalho ou na escola, pelo medo a reação da sociedade. Pouco importa como a pessoa sente-se, desde que o que lhe é externo continue enxergando aquilo que a sociedade quer enxergar. A preocupação maior está em responder as expectativas que o mundo despejou em nossas vidas. Algumas  vezes este mundo é representado primeiramente pela figura da nossa mãe ou pai, um tio, uma tia, depois os amigos, talvez chefes, colegas. No fim, o próprio mundo.
Lendo algumas matérias e relatos fica a impressão de que dizer que somos homossexuais é uma das coisas mais fáceis que possamos fazer. Bem, a realidade não é assim. Também não é sempre que os discursos de "vai ficar tudo bem", são verdadeiros, é preciso estar preparado para o: "Talvez nem tudo fique bem". O fato é que nós vivenciamos realidades específicas e particulares, cabendo a cada um ponderar a hora e o momento mais oportuno. Não existe a idade certa, ser muito jovem ou muito velho, ser cedo ou tarde demais, nenhum desses discursos devem influenciar nossa atitude e vontade.
Cada individuo possui formas próprias de expressar seu sentimento em diversas situações e não é possível prever as reações e consequências de atitudes, mas isto é óbvio. Ao decidir contar aos pais, ou quem quer seja, sobre os aspectos de nossa sexualidade é possível que eles o abracem e digam que nada mudará sob qualquer circunstância, é possível que mesmo antes de você começar a falar eles o envolvam  em um abraço e digam que tudo ficará bem. Entretanto, não é impossível que eles fiquem irreconhecíveis, o reprimam, digam coisas horríveis sobre você e sua orientação/condição, portanto, a decisão de se assumir tem que estar intimamente ligada a um preparo psicológico para uma resposta boa ou não.
Todas as incertezas, inseguranças, medos, entre tantos outros sentimentos que nos habitam não se dissolvem com a fatídica conversa. Pode ser que tudo esteja apenas começando ali. Muitos perdem por completo a liberdade, passam a ser vigiados, alvos de desconfiança e às vezes tudo que você é, já fez  ou ainda fará perde a importância e deixam de ser méritos seus, porque a única coisa que as pessoas irão em enxergar é o fato de ser gay, lésbica, bissexual, enfim, e isso pode vir a  anular qualquer coisa "boa" (aos olhos da sociedade) que venha de você.
A impressão é que a partir do momento em que alguém  decide revelar as pessoas ser homossexual é preciso reconstruir novamente a personalidade perante a elas, ou ao menos relembrá-las da sua. O preconceito em nossa sociedade chega a um ponto tão extremado que somos julgados por uma condição profundamente individual que não atinge de forma nenhuma a vida de quem quer que seja. Afinal de contas, o que as pessoas têm a ver com quem eu vou ou deixo de me relacionar sentimental ou fisicamente?
Alguns têm a sensação de que o que é externo muda depois que nos assumimos. De fato, pouca coisa muda, isto para não dizer que pode ser que nada mude. As pessoas, em geral, continuarão preconceituosas, machistas, mesquinhas, etc. A principal mudança não será a concepção das pessoas sobre você, mas sim, sua próprias concepções sobre você mesmo e a forma pela qual  se enxerga o mundo
A mensagem mais importante a se deixar é que o momento certo para conversar sobre sua orientação/condição sexual é aquele definido por nós, seja ele qual for. O essencial é ter segurança e jamais permitir que a sociedade que nos cerca, suplante ou diminua nossa vida, esperando que realizemos seus sonhos e suas aspirações em detrimento dos nossos.
No instante em que arrancamos nossas máscaras e abandonamos o armário, uma série de preocupações deixam de existir, uma série de outras afloram, mas o mais importante é se abrir, lutar, argumentar e mostrar que não somos motivo de vergonha sob nenhum aspecto, pelo contrário. Só assim é que dia a dia ganharemos espaço e mostraremos aquilo que tanto se luta para cristalizar na mentalidade e cotidiano das pessoas, não há nada demais em ser gay. 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Preconceito


A Construção do Preconceito

      Image courtesy of cooldesign at FreeDigitalPhotos.net

Não é exagero dizer que qualquer pessoa homossexual assumida já foi questionada em algum momento da vida sobre quando se tornou homossexual e essa é uma pergunta  interessante, inusitada e também extremamente ofensiva. Ofensiva porque se parte do princípio que você era algo, mudou e pode vir a mudar novamente, isso pelo fato de as pessoas naturalizarem uma forma de conceber o mundo e a partir daí, tudo que foge dessa concepção se torna errado e desviado. Nesse instante nasce o preconceito.
É "comum", mas não certo, questionar o momento da vida em que uma pessoa se torna homossexual, entretanto, poucos questionam-se em que momento alguém se torna hétero, pois na sociedade em que vivemos ser hétero é natural e não há motivos para se questionar o que é "natural, verdadeiro e universal". Sim, vivemos em um mundo heteronormativo e assim, é  há séculos, parte desse legado foi construído pela igreja que durante sua ascensão e hegemonia cuidou para que qualquer tipo de relação entre pessoas do mesmo sexo fosse endemoniada, não à toa que ainda hoje muitos associam homossexualidade a pecado ou condenação ao inferno.
A  construção da sexualidade é um mistério para muitos médicos, psicólogos, psiquiatras e pesquisadores que se debruçam sobre o assunto, é difícil dizer se o ser humano já nasce com sua sexualidade definida ou se em oposição ela é definida no processo de socialização desse individuo com o mundo que o cerca, assim como acontece com uma série de traços de sua personalidade. Hoje já se sabe que o meio exerce uma significativa influência em determinados aspectos da individualidade e pode ser decisivo em como cada um irá encarar a sexualidade, dita de forma ampla, porém saber até que ponto seria possível afirmar que o meio seria o responsável pela definição da orientação/ condição sexual é ir longe demais e não há respaldo científico para tal afirmação, ao menos por enquanto.
Ser heterossexual ou homossexual diz respeito a cada um e isso não deveria ser motivo de debate, preconceito ou recriminação, porém, tudo isso só acontece justamente pela forma como o processo de socialização individual se dá, processo que reproduz o preconceito criando em pleno século XXI seres humano intolerantes, homofóbicos, racistas e preconceituosos.
Quando falamos em socialização, nos referimos a todos os processos que o ser humano é submetido no interior de grupos sociais que se encarregam de transmitir os valores morais, éticos, culturais, entre outros. Socialização é a assimilação de hábitos característicos do seu grupo social, todo o processo através do qual um indivíduo se torna membro funcional de uma comunidade, assimilando a cultura que lhe é própria. É um processo que inicia-se após o nascimento, através primeiramente da família e depois de agentes próximos como a escola, os meios de comunicação de massas e dos grupos de referência; é contínuo, nunca se dá por terminado, realizando-se através da comunicação.

Cada indivíduo, ao nascer, segundo Strey (2002, p. 59), “encontra-se num sistema social criado através de gerações já existentes e que é assimilado por meio de inter-relações sociais”. O homem, desde seus primórdios, é considerado um ser de relações sociais, que incorpora normas, valores vigentes na família, em seus pares, na sociedade. Assim, a formação da personalidade do ser humano é decorrente, segundo Savoia (1989, p. 54), “de um processo de socialização, no qual intervêm fatores inatos e adquiridos”. Entende-se, por fatores inatos, aquilo que herdamos geneticamente dos nossos familiares, e os fatores adquiridos provém da natureza social e cultural. (UNITINS) 

A citação só reitera o que havíamos mencionado acima, reforçando a tese de que a personalidade do indivíduo é formada a partir da complexa relação entre as características inatas de cada indivíduo mais toda a carga cultural contendo valores, regras, etc., que é transmitida a ele no processo de socialização. Esta personalidade sofre intensa influência do que é exterior, da forma como esse contato com o mundo se dá, nesse aspecto é que podemos falar em construção do preconceito, já que ele é construído, muitas vezes, concomitantemente a personalidade. Vamos avançar.
Tomemos o modelo de socialização ocidental, ao qual estamos inseridos, esse modelo é profundamente permeada por valores machistas e patriarcais (não que isso seja exclusividade do ocidente, muito, mas muito pelo contrário, basta olharmos alguns grupos fundamentalistas do Oriente, veremos que há situações muito piores e bem mais graves, do ponto de vista social e humano para a mulher, por exemplo), a luta para desconstruir essa realidade rígida e opressora não tem sido nada fácil, as mulheres talvez, sejam as primeiras e mais diretamente oprimidas por essa verdadeira ditadura sexual que por séculos oprimiu, calou, neutralizou e assassinou qualquer chance ou destaque para a figura feminina, esta em verdade foi sempre relegada a segundo plano, sem muito ou nenhum destaque em grandes setores da sociedade. Basta lembrar as grandes cientistas, filósofas e pensadoras dos séculos XVIII, XIX e mesmo XX. É possível que você tenha tido alguma dificuldade em lembrar de algum nome.Talvez, porque não houve um significativo número de mulheres nesses campos e, se houve não foram devidamente reconhecidas ou divulgadas.
Mas o tema do papel e lugar da mulher é assunto (e muito importante para nós) de outra postagem. Se para a mulher heterossexual já foi e é difícil, imagine para homossexual.
O nascimento insere-nos  em um mundo que já existe, entramos em um trem em movimento que não permite paradas, reformulações e é bem restrito a reformas, ou seja é bastante complicado tentar desviar a rota, escolher outro caminho ou mesmo se negar a fazer parte da viagem. Citando um artigo do CMI:

[...] Em nosso processo de socialização a assimilação das ideias opressoras hegemônicas como o machismo, a competição, o racismo, a exploração, a hierarquia, a exclusão entre outras nojeiras, são impostas sem possibilidade de questionamento durante toda nossa formação e desenvolvimento enquanto humano e enquanto ser social. Nessa longa viagem apenas aprendemos que as coisas são como são porque simplesmente são, e isso é natural. (CMI, 2012) 

A complexa teia de relações que irá reproduzir os valores vigentes relacionados ao machismo, homofobia  e o preconceito de forma geral,  se inicia ainda na infância da seguinte forma: é natural que os meninos brinquem com carros, bola, se envolvam em futebol, esportes de luta ou atividades tidas como menos delicadas; já as meninas são presenteadas com as bonecas e todo tipo de adereços possíveis como a casa com geladeira, fogão, cama (O lugar da mulher em nossa sociedade?!), as brincadeiras serão mais delicadas as roupas serão rosas em oposição ao azul, dos meninos e, desde muito cedo já é retirado do ser humano a possibilidade de escolha dentro dessa sociedade com os valores já muito bem estabelecidos. 
Ao indivíduo é imposto o futebol, a boneca, "a casinha", a luta, o rosa e o azul, e essa forma de ser indivíduo se naturaliza a tal ponto que a partir de determinado momento o menino irá repelir o rosa, a boneca, a casinha e a menina em oposição irá rejeitar tudo aquilo que ela aprendeu nesse processo de ingresso social fazer parte do mundo dos meninos. Percebam que não se trata de uma repulsa natural ao que é desagradável a criança, mas sim de algo que foi socialmente institucionalizado a ela repulsar. Felizmente, esta lógica dominante não funciona perfeitamente, afinal, e hoje mais que no passado, vivemos uma época de grandes levantes, aprendemos a debater, a questionar, a criticar e principalmente a não permanecer calados diante das injustiças e arbitrariedades construídas ao longo da história da qual também somos fruto.
A relação que propomos acima também não é direta, claro que sempre haverá exceções, mas o importante a frisar é o fato de que é assim que a criança é inserida no mundo, assim que ela é socializada. Não à toa que os mecanismos de opressão e recriminação são reproduzidos, as oposições de gênero são continuamente repostas e assim, ainda será até a luta contra o preconceito ser vencida, o que não será tarefa fácil nem acontecerá quando o sol despontar no horizonte amanhã, já ficou claro que a batalha não é fácil, as tentativas não são poucas, o processo é demasiadamente complexo e o número de pessoas que aceitam ficar na linha de frente é reduzido, entretanto, o mais importante é saber que hoje as vozes não mais simplesmente se calam, o discurso hegemônico não mais domina plenamente e o processo de socialização já se diversificou e existem alternativas a esse rolo compressor que só repõe e reproduz constantemente o preconceito.
  
 Referências
http://www.midiaindependente.org/pt/red/2012/06/508575.shtmlhttp://www.unitins.br/BibliotecaMidia/Files/Documento/BM_633856684394224298apostila_aula_2.pdf