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quarta-feira, 23 de março de 2016

Relacionamento I

 Você já ouviu alguém dizer que relacionamentos gays não duram? Que homens são promíscuos e sexualizados demais para viverem relacionamentos estáveis, monogâmicos ou não? Há diversos discursos dentro e fora do meio LGBT tentando sustentar e reproduzir tal visão. Vamos falar sobre isso? Será que relacionamentos gays são, naturalmente, inviáveis?

Os Instáveis Relacionamentos Gays

Adapatado: Image courtesy of Simon Howden at FreeDigitalPhotos.net

Há uma ideia, equivocada a nosso ver, que rodeia o imaginário de  diversas pessoas, inclusive homossexuais: trata-se de um constatação duvidosa dizendo respeito aos relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, especialmente entre homens, a de que esse tipo de relação não tem futuro e de que está, inevitavelmente, fadada ao fracasso.
Em busca simples pelo Google é possível encontrar uma série de relatos, artigos, listas, dentre outros materiais tratando sobre o tema, o Lado Bi  traduziu um artigo do tumblr da revista Revolutionary que lista o erros mais comuns nos relacionamentos gays; o ChilliWiki publicou uma matéria em que expõe 05 razões que explicam o porquê  de os relacionamentos gays não durarem; caso procuremos um pouco mais, também encontraremos vídeos em canais no Youtube tratando do tema, posicionando-se favorável ou contrariamente a tal "constatação".
A questão da duração de relacionamentos precisa ser drasticamente problematizada. A nós, parece fazer pouco sentido, primeiramente, debater o quanto um relacionamento deve durar para ser considerado estável, ou mesmo utilizar um tipo de relacionamento como parâmetro, no caso heterossexual, para padronizar ou balizar os outros tipos de relacionamentos possíveis, na verdade fazer isso é uma forma de reproduzir ainda mais preconceito.
Muito se fala, em diversos meios, que os homens gays não conseguem se firmar em relacionamentos por diversas características peculiares do sexo biológico masculino, características essas bastante problemáticas. Fala-se que homens tem uma quantidade explosiva de hormônios que os fazem ter um desejo sexual "astronomicamente" maior em relação às mulheres; que homens não conseguem manter-se fiéis, por mais que gostem verdadeiramente de suas/seus parceirxs; que gays são demasiadamente promíscuos e hipersexualizados para relacionamentos longos ou monogâmicos, não que a monogamia seja o modelo ideal ou necessário, longe disso; que a disponibilidade e facilidade de encontros casuais entre homens superam a possibilidade de um relacionamento estável; que os modelos estruturados que prendem heterossexuais em relacionamentos, não existem para os gays, dentre tantas outras justificativas e argumentações problemáticas, no mínimo, que já ouvimos ou lemos por aí.
Em primeiro lugar, é preciso esclarecer que relacionamentos são um projeto que envolve duas ou mais pessoas e que dificilmente haverá receitas ou modelos de sucesso a serem seguidos, pois cada individuo responde de maneira diferente na circunstância de um envolvimento afetivo, então, esqueça tudo que você aprendeu nos contos de fada, na novela das oito que agora é das nove, mas começa nove e meia quase dez, o que leu nos testes das revistas "teen's", que ensinavam como agarrar o "bofe" em cinco passos infalíveis, ou detectavam qual integrante do "Backstreet Boys" e agora do "One Direction" mais combinava/combina com você.
Estar em um relacionamento envolve uma série de variáveis e disposições de ambas as partes envolvidas, um bom sinônimo para relacionamento é a cessão, pois antes do amor, companheirismo, paciência, respeito e empatia, os envolvidos deverão estar dispostos a cederem em algumas circunstâncias, senão, os pontos de discórdia tornar-se-ão maiores que qualquer coisa boa que exista.
A nossa sociedade, heterormativa, instituiu ao longo de séculos o ideal de relacionamento e constituiu-se sob o preceito da indestrutibilidade da família, a qualquer preço. Você que nos lê, provavelmente conhece ou já ficou sabendo de determinado casal heterossexual, que já não tem uma vida, efetivamente, conjugal, mas que por diversas circunstâncias não conseguem colocar fim a uma relação acabada há tempos; ou mesmo de casais que traem, muitas vezes, de forma clara; dizer que um relacionamento desse tipo é duradouro ou usá-lo como forma de comparação é, indiscutivelmente, um equívoco.
Falar que relacionamentos gays não duram ou que homens gays são promíscuos e hipersexualizados (O que é promiscuidade mesmo?), é o mesmo que dizer que todas as relações heterossexuais são perfeitas, duradouras e baseadas no respeito mútuo, o que está bem longe de ser verdade. É preciso o entendimento de que o ser humano engana, ludibria, desrespeita, mas que também ama, espera e pode ser fiel, sem com isso generalizar a humanidade, pois já sabemos, ou ao menos deveríamos saber, que generalizações precisam ser usadas com grande cautela.
  Há pesquisas e artigos que desmistificam a crença popular de que os homens têm um desejo sexual superior ao das mulheres. A grande verdade é que, por séculos, as mulheres foram e ainda são reprimidas sexualmente, elas não podem falar, desejar ou pensar em sexo. O sexo para as mulheres está amplamente relacionado a algo sujo e errado, tanto que os xingamentos destinados a elas, na maioria das vezes, estão ligados ao sexo; além disso, mulheres passam pela menopausa, momento de mudanças hormonais e de queda brusca do apetite sexual, fase não vivida pelo homem. Esses fatores, dentre tantos outros servem de argumento a tese do maior desejo por parte dos homens, que também serve para justificar o fato de que eles precisam buscar satisfação na rua, já que têm necessidades físicas e hormonais astronômicas.
Perceba tratar-se de construções sociais, poucas das quais têm verdadeiro respaldo científico, têm o mesmo fundamento e objetivo do tipo de construção que vai dizer que mulheres amadurecem mais cedo que os homens (sem colocar em discussão as constatações biológicas desse fato), fornecendo a justificativa ética e moral para que homens mais velhos possam relacionar-se com mulheres mais jovens, ou mesmo muito mais jovens sem as condenações que ocorrem, por exemplo, quando é a mulher que se envolve com um rapaz mais novo.
São  questões amplas que perpassam qualquer tipo de relacionamento, os dados que podem dizer sobre a durabilidade dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo ainda são escassos, talvez no futuro tenhamos alguma medida. O que precisamos entender é que as pessoas estão tornando-se mais conscientes e coerentes, estão menos dispostas a sofrer em relações abusivas e mortas na prática. Não devemos confundir liberdade e direito a seguir os caminhos que acreditamos ser melhores, com instabilidade ou falta de capacidade em manter-se em um relacionamento, aberto ou fechado. Mulheres e homens podem ter apetite sexuais variados, tal característica não está, necessariamente, ligada ao sexo biológico.
Ao refletir, percebemos o quanto estas afirmações e pensamentos são machistas, o homem privilegia-se a todo momento, ele pode estar com quem quiser dentro e fora de seu relacionamento, caso ele esteja em um. Ao longo dos anos o discurso que sustenta algumas crenças que, por vezes, parecem tornar-se verdades inquestionáveis, são fruto justamente do motor que pretende a todo momento subjugar determinadas pessoas na sociedade.
Precisamos falar e fazer reflexões mais profundas sobre a homossexualidade, a bissexualidade, sobre os relacionamentos e sair do terreno do senso comum ou da mania em tomar padrões heterossexuais como tábua rasa de comparação. Relacionamentos gays não duram menos ou mais. Quando o assunto é relacionamento e sua durabilidade, precisamos ter certeza de apenas uma coisa: Um Relacionamento, seja ele qual for, deve durar o tempo que tiver de durar, enquanto for bom e saudável para os envolvidos.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Machista II

O Super (gay) Machista
Image courtesy of vectorolie at FreeDigitalPhotos.net

Diante de intolerância e preconceito a reação esperada é uma contra-argumentação sólida e coesa por parte dos atingidos por este tipo de violência. Não é nenhuma exclusividade, nem assunto novo por aqui falar sobre homofobia e o massacre, nem sempre físico, que ela empreende dia a dia. Mas o que dizer e sentir quando esta homofobia vem de indivíduos que deveriam no mínimo construir um discurso e reflexão contrários a ela? O que pensar quando um gay é machista?
Sabemos que a opressão é seletiva relacionando-se especialmente à classe, ao sexo, ao gênero, à cor da pele, dentre tantos outros critérios, há uma hierarquia entre as pessoas e o grau de opressão que as atinge, o que nos permite dizer que a mulher cis hetero branca de classe média não é oprimida da mesma forma e intensidade que a mulher cis, hetero, preta de classe média; ou que o preconceito que recai sobre o homem cis, homossexual, branco de classe média também não é o mesmo sofrido pelo homem cis, homossexual, preto e pobre. Entre as diferenças o grau de opressão se intensifica, porém o mais abominável é constatar que em alguns casos o oprimido toma o discurso do opressor e passa a fazê-lo indiscriminadamente, produzindo ainda mais preconceito, reproduzindo homofobia e promovendo ódio, isso acontece em diferentes circunstâncias.
Algumas posições fornecem determinados privilégios, por exemplo, o gay branco de classe média  se encontra em uma situação que pode distanciá-lo -ao menos aparentemente- da luta em que ele, mesmo sem querer, está inserido, que diz respeito à conquista de direitos e dignidade aos homossexuais, não faltam exemplos práticos e caricatos em nossa sociedade. Provavelmente você já deve ter ouvido algo do tipo: " - Sou gay, mas sou discreto."; "- Não curto afeminados.", "Ser gay tudo bem, agora querer ser mulher é demais." etc. Todas estas falas podem vir ou mesmo já vieram de homossexuais, que tomando um discurso preconceituoso discriminam aqueles que deveriam ser aliados ou companheiros de luta. O discurso pode ser ainda pior em relação as lésbicas e pessoas trans.
Não queremos dizer que é apenas o homem gay branco, cis de classe média que possui tal pensamento e atitude, longe disso, na verdade ele é espalhado por todos os âmbitos do meio LGBT, mas nesse caso há uma situação privilegiada usufruída por essas pessoas. Posição confortável ao ponto de não fazer sentido a elas falar em preconceito ou luta por direito e dignidade, se estivermos falando de um homossexual não bem resolvido com sua sexualidade, o cenário piora.
O quadro desenhado acima acaba por gerar uma das figuras mais contraditórias, a nosso ver, no meio LGBT, o gay machista, aquele que não se vê enquanto gay, menos ainda como LGBT, aquele que irá oprimir o afeminado, o trans, em não poucos casos, as lésbicas e compartilhar de discursos e atitudes próprias de homofóbicos, nem precisamos ir muito longe para chegar onde pretendemos, basta mirar na figura do deputado federal Jean Wyllys. O Jean se tornou um dos maiores políticos engajados na luta pelos direitos LGBT, mas não só, devido a isso, tornou-se alvo fácil e frequente de diversos políticos conservadores, machistas, preconceituosos e como o próprio Jean menciona em alguns casos, fascistas, assim, como da sociedade em geral.
Ao analisar o contexto em que se construiu e vive a sociedade brasileira, uma democracia recente, é bom lembrar, não seriam novidade os ataques que recairiam sobre a figura do deputado, mas a surpresa fica por conta dos inúmeros gays declarados que se posicionam contrários a política feita por Jean, claro que todos têm o direito de apoiar e criticar quem quer que seja. Não se deve apoiar um político, apenas por ele ser gay, preto, branco, católico, evangélico, de origem rica ou pobre, etc., mas sim pelas propostas deste para com a população, no  entanto, é de se esperar um mínimo de consciência crítica, especialmente por parte das minorias, como é o caso dos homossexuais, na hora de eleger seus representantes, lembrando que vivemos em um dos países que mais mata travestis e transexuais
Jean Wyllys é caluniado frequentemente, os absurdos vão desde afirmações que dizem que ele quer alterar a bíblia até ser a favor de se destruir a figura de pai e mãe, claro que cada acusação e calúnia é muito bem voltada a interesses específicos, mas isso é assunto de outro momento, o que nos interessa é observar como diversos gays acabam por reproduzir tal discurso e oprimir ainda mais outros gays ao tentar se colocar em posição de superioridade com base em sua posição social ou não, durante certa ocasião em uma entrevista veiculada por uma emissora de TV aberta, um individuo gay teceu inúmeras críticas infundadas ao Jean, o desqualificando enquanto pessoa, enquanto deputado e enquanto gay; o mesmo indivíduo fez um discurso bem diferente sobre a pessoa de Silas Malafaia quase convidando-o para um café. Diante de tal quadro fica evidente a forma como a homofobia é interiorizada pelo próprio homossexual, em alguns casos, pelos mais diversos motivos, entretanto o fundamento é quase sempre o mesmo.

A identificação enquanto homossexual falta, a conscientização dos papéis sociais falta, a politização necessária enquanto indivíduos indiscutivelmente oprimidos também falta, sendo substituídas por um entendimento raso do mundo circundante, o gay se exime da luta, se exime da homossexualidade e do sangue derramado, para estar no lado que oprime e faz sangrar, na busca, de não sabemos o quê. 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Padrões Sociais

Hoje não, Sociedade!
Image courtesy of lekkyjustdoit at FreeDigitalPhotos.net

Há em nosso mundo uma série de condicionantes para a vida em sociedade. Desde muito cedo, a vivência e o processo de socialização, do qual também somos fruto, incute em nossa mente um sem número de desejos e aspirações, muitas vezes, estranhos a nós.
Para aqueles que não conseguem escapar ao rolo opressor da cultura ocidental, machista, branca, heteronormativa, e acrescentamos também romântica, solidificam-se na mente e no imaginário alguns pré-conceitos, idealizações e sonhos, que podem não ser necessariamente da pessoa em questão, mas antes os sonhos que a sociedade, de maneira ampla, sonhou para e por ela.
O amor romântico, o casal do comercial de margarina, dos finais da novela das seis, dos filmes holllywodianos e tudo mais que está embutido nesse contexto é a nosso ver, um dos produtos mais bem sucedidos dessa cultura, tão bem difundido e amarrado a necessidade individual e social de cada pessoa inserida nesse mundo, que a torna automaticamente um ser estranho, problemático e, principalmente, infeliz, caso ela não consiga alcançar a maior promessa histórica de felicidade: o amor. Amor cristalizado na figura do outro, o qual traz consigo uma das maiores buscas do ser humano contemporâneo: A felicidade e felicidade para sempre.
Afinal, amar é mesmo para todos? A felicidade está no amor? Felizes para sempre não seria apenas uma criação ilusória de fuga, difundida pelos encantadores e encantados contos de fadas, criados apenas como mais um mecanismo de controle social e/ou reprodução do capital sob diversos aspectos?
Um questionamento no mínimo complexo e problemático, para não dizer descabido, pois parece não haver necessidade nenhuma de discutir os mecanismos capazes de trazer a felicidade, menos ainda se estes mecanismos se aplicam a todos de maneira uniforme, já que parece ser universalmente aceito que a felicidade está mesmo no amor e todos precisam encontrar sua metade, senão a tristeza e a busca permanentes parecem ser o destino desses. Nossa visão e percepção de mundo é permeada pelos valores sociais e culturais da sociedade em que vivemos, a busca pelo amor romântico e o condicionamento da felicidade a ele é um desses valores.
A busca pelo amor se torna objetivo de muitos, entretanto, é preciso ter em mente que cada pessoa pode e deve ter o direito de empreender as próprias buscas e estabelecer os próprios objetivos de vida, sem isso significar uma frustração ou motivo para dizer que determinada pessoa jamais será feliz por não ter encontrado alguém para partilhar a vida, talvez esse objetivo nunca tenha passado pela cabeça dela.
Determinadas cobranças parecem nunca acabar: E xs namoradxs? E o casamento? E xs filhxs? Cada pessoa tem (ou, ao menos, deveria ter) o direito de estabelecer as próprias prioridades. Entre as quais, namorar, casar-se ou mesmo ter filhxs pode não ter lugar. A infelicidade não deve estar na ausência do outro, porque cada um precisa ser capaz de ser feliz sozinho primeiro, apenas assim, uma segunda vida pode fazer sentido.
Certos padrões e verdades precisam ser questionados, pois a vida não deve seguir rígidas linhas ou os desejos que outros depositaram sobre nós. A construção de preconceitos segue a mesma lógica, pois esse é gerado pelo estranhamento aquilo que não segue um determinado padrão esperado. Uma mulher que deliberadamente decide não se casar ou ter filhxs, gera esse estranhamento porque "é natural à mulher que ela seja mãe", percebam que o mesmo estranhamento não ocorre com a mesma dimensão em relação ao homem, entretanto, caso ele, por qualquer motivo que seja, não estabelecer um relacionamento com uma mulher (caso ele seja hétero), o questionamento será: "Tal fulano está sozinho nessa idade, será que é gay?".
Dificilmente o pensamento em relação a esses indivíduos irá centrar-se na hipótese de que eles possam ter escolhido livremente não ter ninguém ao lado, em vez de significar, necessariamente, que não houve pessoas dispostas a amá-los ou vice-versa.
Mais uma vez estamos em uma questão trabalhada em outros momentos aqui, trata-se da liberdade individual em poder escolher como caminhar, como viver, sem os pré-julgamentos ou necessidades sociais para com nossas vidas. Cada indivíduo precisa ter a liberdade de fazer suas escolhas, sejam elas quais forem. Namorar, noivar, casar, ter filhos, enfim, cada uma dessas etapas não são uma necessidade universal de felicidade. Cada um encontra, ou ao menos deveria encontrar, a felicidade à sua maneira.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Preconceito


A Construção do Preconceito

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Não é exagero dizer que qualquer pessoa homossexual assumida já foi questionada em algum momento da vida sobre quando se tornou homossexual e essa é uma pergunta  interessante, inusitada e também extremamente ofensiva. Ofensiva porque se parte do princípio que você era algo, mudou e pode vir a mudar novamente, isso pelo fato de as pessoas naturalizarem uma forma de conceber o mundo e a partir daí, tudo que foge dessa concepção se torna errado e desviado. Nesse instante nasce o preconceito.
É "comum", mas não certo, questionar o momento da vida em que uma pessoa se torna homossexual, entretanto, poucos questionam-se em que momento alguém se torna hétero, pois na sociedade em que vivemos ser hétero é natural e não há motivos para se questionar o que é "natural, verdadeiro e universal". Sim, vivemos em um mundo heteronormativo e assim, é  há séculos, parte desse legado foi construído pela igreja que durante sua ascensão e hegemonia cuidou para que qualquer tipo de relação entre pessoas do mesmo sexo fosse endemoniada, não à toa que ainda hoje muitos associam homossexualidade a pecado ou condenação ao inferno.
A  construção da sexualidade é um mistério para muitos médicos, psicólogos, psiquiatras e pesquisadores que se debruçam sobre o assunto, é difícil dizer se o ser humano já nasce com sua sexualidade definida ou se em oposição ela é definida no processo de socialização desse individuo com o mundo que o cerca, assim como acontece com uma série de traços de sua personalidade. Hoje já se sabe que o meio exerce uma significativa influência em determinados aspectos da individualidade e pode ser decisivo em como cada um irá encarar a sexualidade, dita de forma ampla, porém saber até que ponto seria possível afirmar que o meio seria o responsável pela definição da orientação/ condição sexual é ir longe demais e não há respaldo científico para tal afirmação, ao menos por enquanto.
Ser heterossexual ou homossexual diz respeito a cada um e isso não deveria ser motivo de debate, preconceito ou recriminação, porém, tudo isso só acontece justamente pela forma como o processo de socialização individual se dá, processo que reproduz o preconceito criando em pleno século XXI seres humano intolerantes, homofóbicos, racistas e preconceituosos.
Quando falamos em socialização, nos referimos a todos os processos que o ser humano é submetido no interior de grupos sociais que se encarregam de transmitir os valores morais, éticos, culturais, entre outros. Socialização é a assimilação de hábitos característicos do seu grupo social, todo o processo através do qual um indivíduo se torna membro funcional de uma comunidade, assimilando a cultura que lhe é própria. É um processo que inicia-se após o nascimento, através primeiramente da família e depois de agentes próximos como a escola, os meios de comunicação de massas e dos grupos de referência; é contínuo, nunca se dá por terminado, realizando-se através da comunicação.

Cada indivíduo, ao nascer, segundo Strey (2002, p. 59), “encontra-se num sistema social criado através de gerações já existentes e que é assimilado por meio de inter-relações sociais”. O homem, desde seus primórdios, é considerado um ser de relações sociais, que incorpora normas, valores vigentes na família, em seus pares, na sociedade. Assim, a formação da personalidade do ser humano é decorrente, segundo Savoia (1989, p. 54), “de um processo de socialização, no qual intervêm fatores inatos e adquiridos”. Entende-se, por fatores inatos, aquilo que herdamos geneticamente dos nossos familiares, e os fatores adquiridos provém da natureza social e cultural. (UNITINS) 

A citação só reitera o que havíamos mencionado acima, reforçando a tese de que a personalidade do indivíduo é formada a partir da complexa relação entre as características inatas de cada indivíduo mais toda a carga cultural contendo valores, regras, etc., que é transmitida a ele no processo de socialização. Esta personalidade sofre intensa influência do que é exterior, da forma como esse contato com o mundo se dá, nesse aspecto é que podemos falar em construção do preconceito, já que ele é construído, muitas vezes, concomitantemente a personalidade. Vamos avançar.
Tomemos o modelo de socialização ocidental, ao qual estamos inseridos, esse modelo é profundamente permeada por valores machistas e patriarcais (não que isso seja exclusividade do ocidente, muito, mas muito pelo contrário, basta olharmos alguns grupos fundamentalistas do Oriente, veremos que há situações muito piores e bem mais graves, do ponto de vista social e humano para a mulher, por exemplo), a luta para desconstruir essa realidade rígida e opressora não tem sido nada fácil, as mulheres talvez, sejam as primeiras e mais diretamente oprimidas por essa verdadeira ditadura sexual que por séculos oprimiu, calou, neutralizou e assassinou qualquer chance ou destaque para a figura feminina, esta em verdade foi sempre relegada a segundo plano, sem muito ou nenhum destaque em grandes setores da sociedade. Basta lembrar as grandes cientistas, filósofas e pensadoras dos séculos XVIII, XIX e mesmo XX. É possível que você tenha tido alguma dificuldade em lembrar de algum nome.Talvez, porque não houve um significativo número de mulheres nesses campos e, se houve não foram devidamente reconhecidas ou divulgadas.
Mas o tema do papel e lugar da mulher é assunto (e muito importante para nós) de outra postagem. Se para a mulher heterossexual já foi e é difícil, imagine para homossexual.
O nascimento insere-nos  em um mundo que já existe, entramos em um trem em movimento que não permite paradas, reformulações e é bem restrito a reformas, ou seja é bastante complicado tentar desviar a rota, escolher outro caminho ou mesmo se negar a fazer parte da viagem. Citando um artigo do CMI:

[...] Em nosso processo de socialização a assimilação das ideias opressoras hegemônicas como o machismo, a competição, o racismo, a exploração, a hierarquia, a exclusão entre outras nojeiras, são impostas sem possibilidade de questionamento durante toda nossa formação e desenvolvimento enquanto humano e enquanto ser social. Nessa longa viagem apenas aprendemos que as coisas são como são porque simplesmente são, e isso é natural. (CMI, 2012) 

A complexa teia de relações que irá reproduzir os valores vigentes relacionados ao machismo, homofobia  e o preconceito de forma geral,  se inicia ainda na infância da seguinte forma: é natural que os meninos brinquem com carros, bola, se envolvam em futebol, esportes de luta ou atividades tidas como menos delicadas; já as meninas são presenteadas com as bonecas e todo tipo de adereços possíveis como a casa com geladeira, fogão, cama (O lugar da mulher em nossa sociedade?!), as brincadeiras serão mais delicadas as roupas serão rosas em oposição ao azul, dos meninos e, desde muito cedo já é retirado do ser humano a possibilidade de escolha dentro dessa sociedade com os valores já muito bem estabelecidos. 
Ao indivíduo é imposto o futebol, a boneca, "a casinha", a luta, o rosa e o azul, e essa forma de ser indivíduo se naturaliza a tal ponto que a partir de determinado momento o menino irá repelir o rosa, a boneca, a casinha e a menina em oposição irá rejeitar tudo aquilo que ela aprendeu nesse processo de ingresso social fazer parte do mundo dos meninos. Percebam que não se trata de uma repulsa natural ao que é desagradável a criança, mas sim de algo que foi socialmente institucionalizado a ela repulsar. Felizmente, esta lógica dominante não funciona perfeitamente, afinal, e hoje mais que no passado, vivemos uma época de grandes levantes, aprendemos a debater, a questionar, a criticar e principalmente a não permanecer calados diante das injustiças e arbitrariedades construídas ao longo da história da qual também somos fruto.
A relação que propomos acima também não é direta, claro que sempre haverá exceções, mas o importante a frisar é o fato de que é assim que a criança é inserida no mundo, assim que ela é socializada. Não à toa que os mecanismos de opressão e recriminação são reproduzidos, as oposições de gênero são continuamente repostas e assim, ainda será até a luta contra o preconceito ser vencida, o que não será tarefa fácil nem acontecerá quando o sol despontar no horizonte amanhã, já ficou claro que a batalha não é fácil, as tentativas não são poucas, o processo é demasiadamente complexo e o número de pessoas que aceitam ficar na linha de frente é reduzido, entretanto, o mais importante é saber que hoje as vozes não mais simplesmente se calam, o discurso hegemônico não mais domina plenamente e o processo de socialização já se diversificou e existem alternativas a esse rolo compressor que só repõe e reproduz constantemente o preconceito.
  
 Referências
http://www.midiaindependente.org/pt/red/2012/06/508575.shtmlhttp://www.unitins.br/BibliotecaMidia/Files/Documento/BM_633856684394224298apostila_aula_2.pdf

sábado, 1 de fevereiro de 2014

O Beijo!

Respeitável Público: O Beijo!

Depois de anos, um número razoável de folhetins, alguns protagonistas e um bom tempo de trabalho junto ao público brasileiro, uma das maiores emissoras em audiência e arrecadação de nosso país decidiu por enfrentar o preconceito e exibir o tão aclamado, rejeitado, pedido e esperado, beijo gay.
Felix e Niko selaram sua união e amor em uma sequência de três beijos tímidos, entretanto muito bem elaborada, foi um tapa na cara de uma sociedade machista, religiosa e retrógrada, um ato, muito tardio, diga-se de passagem, contra todo tipo de preconceito que os homossexuais vêm sofrendo ao longo dos anos não só no Brasil. Estamos diante de uma quebra de paradigma, estamos diante de um fato histórico que vai mudar daqui em diante a concepção de muitas pessoas em relação aos homossexuais, é triste que essa mudança tenha que partir de um apelo midiático e não tenha sido resultado direto da luta legítima do movimento que há anos batalha pelo reconhecimento dos direitos e liberdade individual e coletiva dos homossexuais.
Milhares de pessoas esperaram e vibraram com um único beijo, um ato tão simples e banal, cuja importância ideológica no contexto não tem tamanho. A mudança da concepção e pensamento do público em geral deve ser considerada, principalmente quando comparamos personagens gays de outras novelas que não tiveram a mesma recepção dispensada a Félix e Niko, na verdade o gay mais bem recebido até hoje sempre foi o gay estereotipado, sozinho, solitário, cuja vida sempre era algo um tanto quanto coadjuvante.
No momento da cena eu estava em um bar e presenciei as mais variadas reações. Desde gritos sufocados cuja sensação passava uma comemoração vitoriosa, até falas abafadas de pessoas que condenavam o que acabaram de ver, claro, não poderia ser diferente. Apesar de finalmente termos assistido ao que muitos chamam de, equivocadamente, “primeiro beijo gay da TV”, isso porque o SBT em “Amor e Revolução” transmitiu um beijo entre duas mulheres, bem mais ousado , digamos, ainda assim não podemos negar que a emissora em questão tem um alcance e influência muito maior e a cena acontecer num folhetim transmitido por ela, tem um enorme impacto inquestionavelmente.
A sensação que permanece é a de insegurança, o beijo aconteceu. E agora? O que vamos fazer com isso? Para onde vamos caminhar? Que caminhos de discussão vamos trilhar?
Como nunca antes, temos um terreno aberto para nos mostrarmos, para falar, conversar e discutir. Temos espaço, coisa que era inimaginável há cinco anos.  A Globo, apesar de todos os pesares que eu levanto no próximo texto que publicarei aqui, sem sombra de dúvida deu um chute na cara de muita gente colocando em xeque posições extremadas e equivocadas. Onde fica a cura gay? Para onde vão as posições mantidas pelos nossos ilustríssimos parlamentares nesse novo contexto?
O que mais deve ser pesado nessa balança é que pela primeira vez a relação entre pessoas do mesmo sexo foi tratada com naturalidade, o amor entre Felix e o Niko foi representado, assim como é feito para o amor entre casais heterossexuais, com leveza e maturidade, isso possibilita que diversas visões distorcidas dos relacionamentos entre gays possam ser quebradas e desmistificadas, finalmente, devido ao alcance que felizmente ou infelizmente só uma emissora de TV desse porte conseguiria. Resta saber e esperar as cenas do próximo capítulo.
Nossa torcida é sempre pelo avanço, pelo diálogo, respeito e liberdade de cada indivíduo em exercer sua cidadania e personalidade por completo.