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sexta-feira, 11 de março de 2016

Mulheres

Durante esta semana o Alternnativa deu espaço para que mulheres dissessem a nós "O que é ser Mulher?". Maíra, Talita, Fran, Karina e Tatiana, compartilharam conosco um pouco de sua experiência e luta enquanto mulheres. Aproveitamos para agradecê-las imensamente por nos ter prestigiado com seus textos, pensamentos, vídeos e dizer, longe dos clichês da moda, que todo dia é dia de Mulher sim, todo dia tem de ser dedicado à luta contra o machismo, contra a misoginia, o patriarcado, todo dia precisa ser uma busca incessante por sororidade. Para fechar esta primeira série especial aqui no Alternnativa, chamamos Tatiana Venâncio para nos responder a pergunta que abriu nossa semana: O que é ser Mulher?
Tatiana é negra, tem 29 anos e mora na zona Sul da capital. Na contramão do racismo e dos descaminhos que as mulheres negras ainda percorrem em nossa sociedade, graduou-se em Biologia por uma instituição de renome, é mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e pretende ingressar no programa de doutorado da Faculdade de Educação, da mesma universidade.
Tatiana faz questão de afastar o discurso da meritocracia para falar de sua trajetória acadêmica e pontua que sua visão de mundo, especialmente em relação à mulher, mudou sensivelmente nos últimos anos.

"O que é ser Mulher?" por Tatiana Venâncio

Image courtesy of africa at FreeDigitalPhotos.net

"Muito difícil expressar com palavras o que é ser mulher. Se essa pergunta tivesse sido feita há 15 anos minha resposta seria completamente diferente. Até minha adolescência eu acreditava que as mulheres tinham de desempenhar somente algumas funções na sociedade, acreditava realmente que algumas profissões eram “destinadas” às mulheres e outras “destinadas” aos homens.
Minha visão com relação ao meu gênero era extremamente limitada. Eu via os homens ao meu redor trabalhando fora e não fazendo quase nenhum trabalho doméstico e as mulheres cuidando de todos os afazeres da casa trabalhando fora ou não. Havia uma divisão muita clara.
Hoje estou rodeada de mulheres fortes que trabalham nas mais diversas profissões. Que lutam por melhores cargos, por melhores condições de vida. Que têm muitas outras preocupações sociais além de casamento e filhos. Hoje sei que ser mulher é a convivência diária com dores e deleites, vulnerabilidade e força, medo e coragem. É superação diária. É ter atenção redobrada na rua, sempre que chega a noite após o trabalho ou após a cerveja com as amigas. É pensar que o taxista ou cara do tinder pode ser um estuprador serial killer. É saber que se corre mais riscos do que um homem ao viajar sozinha. É ter de explicar a um homem a diferença entre assédio e elogio.
Hoje sei que as mulheres ainda são desrespeitadas em seu ambiente de trabalho, sei que elas ganham menos que os homens e que a cada segundo, milhares de mulheres são violentadas no mundo todo. Hoje eu sei que as mulheres negras são o grupo em maior desvantagem sob todas as perspectivas sociais, ao comparar-se às mulheres brancas e aos homens em geral. Mas sobretudo, hoje sei que qualquer mulher pode fazer qualquer coisa que se dispuser a fazer."""

quinta-feira, 10 de março de 2016

Mulheres

Hoje quem diz "O que  ser Mulher?" é Karina Fasson, com 27 anos é mestranda em Sociologia. Karina que já é socióloga, deixou para trás uma carreira na iniciativa privada para dedicar-se à dissertação de mestrado em que trata de relações raciais no ambiente escolar. Para ela o discurso feminista precisa ser uma prática cotidiana.

"O que é ser Mulher?" por Karina Fasson 



"Ser mulher anda difícil: uma luta constante e cotidiana. Pra mim, o pior dos machismos é aquele dissimulado, que, por vezes, demoramos a entender. O namorado que parece tratar bem e apoiar, mas na primeira demonstração de força da namorada, a coloca pra baixo e a diminui por não conseguir ter a mesma coragem que ela diante da vida. O cara com uma vida pública lutando por pautas progressistas, mas que trata mulher como objeto. O outro cara que compra livro sobre feminismo, mas também trata mulher como objeto. A menina que se diz feminista, fala que as mulheres tem que se unir e que a culpa é sempre dos homens, mas que, quando vai ver, está disputando homem por aí como se as mulheres fossem inimigas.
Espero e luto todos os dias para que ser mulher signifique mais igualdade e respeito por parte dos homens, e mais sororidade por parte das mulheres."        

quarta-feira, 9 de março de 2016

Mulheres

"O que é ser Mulher?" por Fran Santos

Para responder "O que é ser Mulher?", Fan Santos de 29 anos, que também é YouTuber, gravou um vídeo para compartilhar aqui no Alternnativa. Analista de pesquisa, trabalha há mais de dez anos na mesma empresa, é esposa, mãe, filha e irmã. Conheceu seu marido ainda na adolescência, por quem se apaixonou.
Fran resume o significado de ser mulher em uma palavra: Guerreira.       
                         
                        Acesse o canal da Fran clicando aqui.

terça-feira, 8 de março de 2016

Mulheres

Perguntamos "O que é ser Mulher?" à Talita Amaro, paulistana de 25 anos, ex-moradora da Cidade Tiradentes, já frequentou os cursos de História e Ciências Sociais, porém os interrompeu para cursar medicina com bolsa integral. Desde 2011 está a frente da coordenação geral do Cursinho Mafalda, projeto social que oferece anualmente, sem mensalidade, mais de 1.000 vagas distribuídas entre cursos de idiomas, pré-universitário, EJA - Enem, etc.  
Talita não consegue falar sobre Mulher, sem recorrer as diversas referências que teve ao longo da vida, referências as quais a fizeram ser a Mulher que é hoje.

"O que é ser Mulher"? por Talita Amaro 

FreeImages.com/Marcelo Moura

"Atendendo ao pedido de um amigo de longa data, escrevo aqui, o que é ser mulher em minha experiência pessoal.
Minha vida sempre foi bastante feminina, no sentido de ter sido sempre acompanhada por mulheres. Não por eu ser lésbica, mas porque minhas grandes referências são mulheres. Tanto nas artes, na academia quanto na vida cotidiana.
Sou de uma família que tem a presença forte das mulheres. Minha mãe é uma mulher forte, baseio minha força no que ela reflete. Minha avó era uma mulher muito especial, pois tinha espiritualidade aguçada, o que sempre me fez ser um pouco mais conectada ao que há de paralelo ao mundo material, embora invisível. Minhas professoras de nível básico, desde a pré-escola até o Ensino Médio, sempre me acompanharam, impulsionaram e forneceram a base educativa para que eu ingressasse no ensino superior. Fui uma aluna sortuda.
Ao ingressar na universidade e iniciar a prática política, tive muitas mulheres ao meu lado, muitas me ensinando sobre militância, muitas dando exemplos pelos atos e muitas construindo reflexões que mudaram meu olhar para diversas questões. O que, por um lado, me ajudou, pois hoje sou menos boçal do que já fui, mas que por outro lado me atrapalhou: pois estou cada vez menos sociável – ao passo que não tenho facilidade em conviver com pessoas reacionárias. Em minha vida atual tenho uma mulher ao meu lado, uma companheira, inteligente, linda, amável e muitos outros adjetivos difíceis de dizer em um texto. Ela me ajudou, me lapidou, me ensinou e ensina a ser alguém cada vez mais adequada ao mundo que desejamos colaborar para construir.
Enfim, não sei se respondi a questão proposta, mas para me falar mulher, tive de recorrer a muitas lembranças e recordações e dizer a partir de quais mulheres me tornei quem sou hoje."

segunda-feira, 7 de março de 2016

Mulheres

                  Mulheres por Mulheres

Image courtesy of imagerymajestic at FreeDigitalPhotos.net

Nesta semana é comemorado o Dia Internacional da Mulher, nós do Alternnativa não poderíamos deixar esta data passar em branco de forma nenhuma. Nós que aqui tentamos construir reflexões contrárias ao preconceito, em uma luta pela não opressão às minorias e grupos historicamente segregados na sociedade.
Que façamos deste dia um momento de reflexão que se projete para o ano todo, que a cada dia, mulheres alcancem igualdade e liberdade, que o machismo não mais cale, violente e asfixie as vozes que durante centenas de anos permaneceram oprimidas e silenciadas. Hoje e sempre, que a voz sejam delas, começando agora. 
O Alternnativa perguntou "O que é ser mulher?" para algumas mulheres, a resposta você acompanha aqui durante a semana.         
A primeira Mulher a nos responder é Maíra Meyer, ela é revisora e tradutora, tem 35 anos  e se considera feminista.

"O que é ser Mulher?" por Maíra Meyer

"Ser mulher é lutar pela própria visibilidade. Pela própria voz. Para que não lhe calem nunca a voz. É descobrir o significado profundo da palavra sororidade, e, sobretudo, aplicá-la na prática. Senti-la. É saber que, desde o princípio, todas nós somos irmãs. É persistir sempre na batalha, interna e em grupo, a favor de um mundo mais justo para todos os seres humanos. É reverenciar o Sagrado Feminino e andar lado a lado com a Divindade que há em cada uma de nós."

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Enem

O Enem Feminista
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Algo que era até pouco tempo impensável aconteceu na vida real, tivemos uma prova de abrangência nacional, o Enem, contendo pautas sociais urgentes, envolvendo questões acerca de gênero, feminismo e violência contra a mulher, pautas que tantos setores lutam para que sejam inseridas fortemente na escola, esteve colocada na avaliação que há algum tempo pretende ser um mecanismo de uniformização do que se aprende nessa.
Vivemos um momento de grande tensão, há um insistente discurso afirmando uma crise econômica que se mostra contraditória e não muito palpável; há com certeza uma crise política representada no atual momento por um engessamento das decisões políticas federais e andamento de tais decisões, somado a isso percebemos uma onda conservadora e machista em voga na sociedade, refletida na câmara dos deputados e em alguns dos últimos projetos por ela apresentados.
Na tentativa de fazer frente a onda conservadora os movimentos e pessoas diretamente atingidos por ela tem reagido, entre eles, o LGBT (ressalvadas as devidas proporções) e o feminismo, pretendendo não ter suas vozes caladas nem seus direitos, conquistados com difíceis lutas, sufocados. É nesse contexto que o Enem, em sua última edição, trouxe a tona Simone de Beauvoir -um ícone para o feminismo-, e a "Persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira". Uma sociedade que ainda mata mulheres, as exclui, as vê em posição de inferioridade em relação aos homens, que as desqualifica, incapacita e as sufoca. Uma sociedade que violenta física, social e moralmente mulheres de todos os tipos, embora também haja uma seletividade no grau de tal exclusão e violência.
O Enem trouxe à luz a possibilidade de um debate muito mais amplo e profundo que transcende o alcance e objetivos da prova, os traços do ódio contra a mulher e a violência que ele gera está escancarado em nossa sociedade,  infelizmente. O exemplo mais claro no momento esteja, talvez, em boa parte dos julgamentos e ofensas proferidos a atual presidenta do país, muitos revoltados sem causa, pautam-se apenas no fato de Dilma ser mulher para desqualificá-la do cargo que ocupa, usando de xingamentos e ofensas misóginas, que passam para muitos, despercebidos e descolados de tal carga.
O Enem foi ainda mais além, ao abrir a possibilidade na mente de aproximadamente 8 milhões de jovens e adultos de se discutir gênero e identidade de gênero ao citar: "Ninguém nasce mulher; torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; [...]" trecho do livro O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Claro que a prova trazia apenas um trecho de uma obra bem mais profunda e complexa, mas é uma semente, uma iniciativa, sendo otimista, uma luz. Já apresentamos em outros momentos aqui no blog algumas discussões acerca de gênero e voltaremos a falar dele, pois é fundamental falar sobre a construção do gênero e das identidades, para falar de machismo, homofobia, preconceito, etc.
É importante olhar para a sociedade e constatar que de alguns lugares as vozes dos oprimidos conseguem ecoar e se fazer ouvir. O tema de redação do Enem, foi muito mais que um tema, foi muito mais que uma redação e muito maior que o Enem, foi o grito de milhares de mulheres que sofreram e ainda sofrem caladas, diariamente violentadas pelo machismo na figura do homem desconhecido e especialmente do conhecido; algumas vezes na figura da própria da mulher que nasce e cresce envolta por valores que a inferiorizam perante a sociedade.
A violência contra a mulher precisa parar, deve deixar de persistir na sociedade brasileira e em qualquer outra sociedade, igualdade e respeito é o que todos nós merecemos. E em meio há tantos absurdos e a violência dos últimos tempos, abrir o Enem e ler Simone, é no mínimo pra nos encher de esperança.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Preconceito


A Construção do Preconceito

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Não é exagero dizer que qualquer pessoa homossexual assumida já foi questionada em algum momento da vida sobre quando se tornou homossexual e essa é uma pergunta  interessante, inusitada e também extremamente ofensiva. Ofensiva porque se parte do princípio que você era algo, mudou e pode vir a mudar novamente, isso pelo fato de as pessoas naturalizarem uma forma de conceber o mundo e a partir daí, tudo que foge dessa concepção se torna errado e desviado. Nesse instante nasce o preconceito.
É "comum", mas não certo, questionar o momento da vida em que uma pessoa se torna homossexual, entretanto, poucos questionam-se em que momento alguém se torna hétero, pois na sociedade em que vivemos ser hétero é natural e não há motivos para se questionar o que é "natural, verdadeiro e universal". Sim, vivemos em um mundo heteronormativo e assim, é  há séculos, parte desse legado foi construído pela igreja que durante sua ascensão e hegemonia cuidou para que qualquer tipo de relação entre pessoas do mesmo sexo fosse endemoniada, não à toa que ainda hoje muitos associam homossexualidade a pecado ou condenação ao inferno.
A  construção da sexualidade é um mistério para muitos médicos, psicólogos, psiquiatras e pesquisadores que se debruçam sobre o assunto, é difícil dizer se o ser humano já nasce com sua sexualidade definida ou se em oposição ela é definida no processo de socialização desse individuo com o mundo que o cerca, assim como acontece com uma série de traços de sua personalidade. Hoje já se sabe que o meio exerce uma significativa influência em determinados aspectos da individualidade e pode ser decisivo em como cada um irá encarar a sexualidade, dita de forma ampla, porém saber até que ponto seria possível afirmar que o meio seria o responsável pela definição da orientação/ condição sexual é ir longe demais e não há respaldo científico para tal afirmação, ao menos por enquanto.
Ser heterossexual ou homossexual diz respeito a cada um e isso não deveria ser motivo de debate, preconceito ou recriminação, porém, tudo isso só acontece justamente pela forma como o processo de socialização individual se dá, processo que reproduz o preconceito criando em pleno século XXI seres humano intolerantes, homofóbicos, racistas e preconceituosos.
Quando falamos em socialização, nos referimos a todos os processos que o ser humano é submetido no interior de grupos sociais que se encarregam de transmitir os valores morais, éticos, culturais, entre outros. Socialização é a assimilação de hábitos característicos do seu grupo social, todo o processo através do qual um indivíduo se torna membro funcional de uma comunidade, assimilando a cultura que lhe é própria. É um processo que inicia-se após o nascimento, através primeiramente da família e depois de agentes próximos como a escola, os meios de comunicação de massas e dos grupos de referência; é contínuo, nunca se dá por terminado, realizando-se através da comunicação.

Cada indivíduo, ao nascer, segundo Strey (2002, p. 59), “encontra-se num sistema social criado através de gerações já existentes e que é assimilado por meio de inter-relações sociais”. O homem, desde seus primórdios, é considerado um ser de relações sociais, que incorpora normas, valores vigentes na família, em seus pares, na sociedade. Assim, a formação da personalidade do ser humano é decorrente, segundo Savoia (1989, p. 54), “de um processo de socialização, no qual intervêm fatores inatos e adquiridos”. Entende-se, por fatores inatos, aquilo que herdamos geneticamente dos nossos familiares, e os fatores adquiridos provém da natureza social e cultural. (UNITINS) 

A citação só reitera o que havíamos mencionado acima, reforçando a tese de que a personalidade do indivíduo é formada a partir da complexa relação entre as características inatas de cada indivíduo mais toda a carga cultural contendo valores, regras, etc., que é transmitida a ele no processo de socialização. Esta personalidade sofre intensa influência do que é exterior, da forma como esse contato com o mundo se dá, nesse aspecto é que podemos falar em construção do preconceito, já que ele é construído, muitas vezes, concomitantemente a personalidade. Vamos avançar.
Tomemos o modelo de socialização ocidental, ao qual estamos inseridos, esse modelo é profundamente permeada por valores machistas e patriarcais (não que isso seja exclusividade do ocidente, muito, mas muito pelo contrário, basta olharmos alguns grupos fundamentalistas do Oriente, veremos que há situações muito piores e bem mais graves, do ponto de vista social e humano para a mulher, por exemplo), a luta para desconstruir essa realidade rígida e opressora não tem sido nada fácil, as mulheres talvez, sejam as primeiras e mais diretamente oprimidas por essa verdadeira ditadura sexual que por séculos oprimiu, calou, neutralizou e assassinou qualquer chance ou destaque para a figura feminina, esta em verdade foi sempre relegada a segundo plano, sem muito ou nenhum destaque em grandes setores da sociedade. Basta lembrar as grandes cientistas, filósofas e pensadoras dos séculos XVIII, XIX e mesmo XX. É possível que você tenha tido alguma dificuldade em lembrar de algum nome.Talvez, porque não houve um significativo número de mulheres nesses campos e, se houve não foram devidamente reconhecidas ou divulgadas.
Mas o tema do papel e lugar da mulher é assunto (e muito importante para nós) de outra postagem. Se para a mulher heterossexual já foi e é difícil, imagine para homossexual.
O nascimento insere-nos  em um mundo que já existe, entramos em um trem em movimento que não permite paradas, reformulações e é bem restrito a reformas, ou seja é bastante complicado tentar desviar a rota, escolher outro caminho ou mesmo se negar a fazer parte da viagem. Citando um artigo do CMI:

[...] Em nosso processo de socialização a assimilação das ideias opressoras hegemônicas como o machismo, a competição, o racismo, a exploração, a hierarquia, a exclusão entre outras nojeiras, são impostas sem possibilidade de questionamento durante toda nossa formação e desenvolvimento enquanto humano e enquanto ser social. Nessa longa viagem apenas aprendemos que as coisas são como são porque simplesmente são, e isso é natural. (CMI, 2012) 

A complexa teia de relações que irá reproduzir os valores vigentes relacionados ao machismo, homofobia  e o preconceito de forma geral,  se inicia ainda na infância da seguinte forma: é natural que os meninos brinquem com carros, bola, se envolvam em futebol, esportes de luta ou atividades tidas como menos delicadas; já as meninas são presenteadas com as bonecas e todo tipo de adereços possíveis como a casa com geladeira, fogão, cama (O lugar da mulher em nossa sociedade?!), as brincadeiras serão mais delicadas as roupas serão rosas em oposição ao azul, dos meninos e, desde muito cedo já é retirado do ser humano a possibilidade de escolha dentro dessa sociedade com os valores já muito bem estabelecidos. 
Ao indivíduo é imposto o futebol, a boneca, "a casinha", a luta, o rosa e o azul, e essa forma de ser indivíduo se naturaliza a tal ponto que a partir de determinado momento o menino irá repelir o rosa, a boneca, a casinha e a menina em oposição irá rejeitar tudo aquilo que ela aprendeu nesse processo de ingresso social fazer parte do mundo dos meninos. Percebam que não se trata de uma repulsa natural ao que é desagradável a criança, mas sim de algo que foi socialmente institucionalizado a ela repulsar. Felizmente, esta lógica dominante não funciona perfeitamente, afinal, e hoje mais que no passado, vivemos uma época de grandes levantes, aprendemos a debater, a questionar, a criticar e principalmente a não permanecer calados diante das injustiças e arbitrariedades construídas ao longo da história da qual também somos fruto.
A relação que propomos acima também não é direta, claro que sempre haverá exceções, mas o importante a frisar é o fato de que é assim que a criança é inserida no mundo, assim que ela é socializada. Não à toa que os mecanismos de opressão e recriminação são reproduzidos, as oposições de gênero são continuamente repostas e assim, ainda será até a luta contra o preconceito ser vencida, o que não será tarefa fácil nem acontecerá quando o sol despontar no horizonte amanhã, já ficou claro que a batalha não é fácil, as tentativas não são poucas, o processo é demasiadamente complexo e o número de pessoas que aceitam ficar na linha de frente é reduzido, entretanto, o mais importante é saber que hoje as vozes não mais simplesmente se calam, o discurso hegemônico não mais domina plenamente e o processo de socialização já se diversificou e existem alternativas a esse rolo compressor que só repõe e reproduz constantemente o preconceito.
  
 Referências
http://www.midiaindependente.org/pt/red/2012/06/508575.shtmlhttp://www.unitins.br/BibliotecaMidia/Files/Documento/BM_633856684394224298apostila_aula_2.pdf

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Héteros


Todos não somos Héteros!

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 Quanto mais avançamos no tempo, mais uma ala de seres humanos insiste em retroagir, é inconcebível que em pleno ano de 2014 alguns gritos ainda ecoem e algumas falas ultrapassadas ainda encontrem vitalidade e continuidade.
Recentemente circulou na rede um texto de um famoso pastor, no qual ele afirma que os indivíduos aprendem a ser homossexuais por imposição ou aprendizado, no mesmo texto há referências à psicologia, bíblia e genética, o autor do artigo caminha livremente entre todas as áreas possíveis para construir seus argumentos falhos, incoerentes e extremamente absurdos, e não é a primeira vez que ele o faz. Digno de um palanque em praça pública com direito a uma multidão na escuta para ouvi-lo, no que ele considera ser uma revelação, uma verdadeira mensagem que vem em busca de salvar almas pecaminosas e perdidas que se deixaram influenciar por um mau sem remédio, ao abrir as portas de sua alma e corpo para o pecado fazer morada. 
Alguns pontos precisam ser esclarecidos quando simplesmente afirmamos que o fato de um indivíduo ser hétero, homossexual, bissexual, pansexual, deriva de uma determinação genética ou do processo de socialização e desenvolvimento da personalidade, não que concordemos com uma afirmação ou outra ou mesmo que ambas sejam mutuamente excludentes, porque não são. Mas vamos considerar a afirmação veiculada no texto mencionado, de que a homossexualidade é aprendida ou imposta.
Tem sido recorrente uma falácia que vem se convencionando chamar de “Ditadura Gay”, são dezenas de artigos (sem credibilidade inclusive), páginas no facebook, e mais um sem número de referências de pessoas que são a favor e acreditam estar vivendo uma ditadura gay, pois têm a sensação de que a qualquer momento seus filhos e amigos podem se tornar homossexuais; têm medo de ser atacados por homossexuais nas ruas; pensam que os casais formados por pessoas do mesmo sexo são uma afronta a sociedade e estão cada vez menos preocupados em demonstrar o quanto são felizes em qualquer local (públicos inclusive. Que Absurdo!). 
A grande verdade é que não existe nenhum tipo de ditadura gay, estamos à anos-luz de algo assim, mas é impossível compreender o porquê de tantas pessoas (principalmente os héteros, nesse caso por motivos óbvios) se incomodarem tanto com essa tal "ditadura", afinal de contas, o mundo está há muito mais de 2.000 anos sob uma ditadura hétero e poucos reclamaram nesse nível.
Muito se discute se a homossexualidade é genética ou social, mas pouquíssimas pessoas colocam em evidência que a discussão não é sobre homossexualidade e sim sobre a sexualidade humana de forma ampla. Se o fato de alguém ser gay estiver relacionado a sua genética a heterossexualidade também estará. Se uma é socialmente desenvolvida o mesmo vale para outra e, isso tem de estar bem claro em qualquer discussão que envolva tais assuntos.
Ser hétero não é natural, somos desde o momento em que o espermatozoide fecunda um óvulo, concebidos de acordo com um sexo e gênero já instituídos e não existe opção, não existe construção, ao menos num primeiro momento. Nosso gênero e sexualidade são impostos de forma heterossexual.    Dizer que homossexualidade é imposta derivaria dizer que vivemos em uma sociedade em que a homossexualidade é comum, vivida abertamente e não é alvo de preconceito e discriminação. Nossa sociedade permite isso? Na verdade acontece o contrário, apenas a heterossexualidade é vista como natural e comum, nós somos ensinados a ser assim, a heterossexualidade é imposta, assim como nosso gênero. 
Não é, necessariamente, natural alguém que nasce com uma vagina sentir-se atraído por alguém que nasceu com um pênis, isso é ensinado como natural e interiorizado desde quando se é criança  e, claro que cedo ou tarde esse indivíduo irá encarar isso como algo que é natural a ele. Ter um pênis não significa ser, necessariamente, homem, assim como ter uma vagina não significa ser, necessariamente, mulher, assim como não devemos confundir os termos homem x mulher; macho x fêmea; masculino x feminino; hétero x homo. Cada um desses termos representa uma característica particular e podem ser usados como sinônimos especialmente por pessoas (mal instruídas e/ ou mal intencionadas) na tentativa de justificar que o natural é seguir sua natureza (socialmente criada), mas isso é assunto para outro post. O que resta dizer é que não se sabe, de fato, o momento em que definimos nossa sexualidade, se não for genética, então tanto héteros quanto gays são construídos pela sociedade. Nesse caso é fácil olhar para o lado e ver que sem dúvida todos somos doutrinados à heterossexualidade.
Se não existir o gene gay, também não existe o gene hétero. Se alguém é capaz de afirmar que o indivíduo aprende a ser gay em seu processo de socialização, então afirmamos que igualmente aprendemos a ser héteros no mesmo processo. Nascer com um pênis ou uma vagina não determina por quem você se sentirá atraído sexualmente (Será que o psicólogo pastor sabe que identidade de gênero e orientação sexual são coisas diferentes?).
Durante boa parte da vida é imposto  às pessoas um gênero e uma orientação sexual específica, nessa sociedade machista e profundamente heteronormativa dizer que pessoas se tornam gays por imposição ou influência seria uma piada digna de gargalhadas debochadas e gritantes, não fosse a dose exagerada e mascarada de preconceito e homofobia.
Por acaso os modelos de família feliz são formados por pessoas do mesmo sexo? Branca de Neve, Cinderela ou Bela Adormecida, eram travestis?
Quer afirmar que as pessoas podem se tornar gays? Então afirme também: Todos nós somos obrigados a ser héteros de forma impositiva, violenta e massacrante.