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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Imposições Sociais

Oi pessoal! Mais uma semana com publicação aqui no Alternnativa, não queremos criar falsas expectativas, mas ao que tudo indica iremos conseguir estabelecer nosso plano de postar material a cada quinze dias, sempre às quartas-feiras.
Hoje trazemos um texto que discute mais uma vez as imposições sociais ligadas ao gênero e à sexualidade, o texto resgata algumas discussões já feitas em outros momentos aqui no blog e avança um pouco mais, para abrir espaço às futuras reflexões que faremos.
Gênero e Sexualidade como Imposições Sociais

Imagem: www.sertaonahora.com.br

Ao nascer chegamos a um mundo e a uma sociedade que já estão edificados, nosso papel de construção e mudança é, a princípio, restrito, porque uma gigante parte dos elementos que farão ou deveriam fazer parte de nossa personalidade já estão dados e pouco poderá ser modificado.
Dois destes elementos dizem respeito a nossa sexualidade e ao nosso gênero, os que nascem com vagina são socialmente mulheres, que devem se relacionar amorosa e sexualmente com homens; paralelo similar vale para os que nascem com pênis, socialmente homens, devendo relacionar-se com mulheres. São elementos que aos olhos de nossa sociedade heteronormativa são tão naturais e inatos quanto nossas digitais.
 O processo social do qual somos herdeiros não permite divergência, alternativa ou mudança, entretanto, o mesmo processo não leva em conta que o ser humano é um complexo inexplicável de sensações, sentimentos, pensamentos e contraditoriedades, tornando impossível a simples determinação de sua sexualidade pelo outro, pela sociedade ou ainda por uma parte isolada de seu corpo físico.
O homossexual, o trans, o não-binário (temos consciência de se tratar de características ligadas a orientação sexual e a identidade de gênero)  sentem-se diferentes desde muito cedo, não à toa, é comum ouvirmos coisas do tipo:

 - Ele nunca gostou de brincar com carros, preferia as bonecas.
 - Quando ela era pequena vivia no meio dos "moleques", odiava laços no cabelo, brincos, vestidos, ou coisas assim.
-  Ah, ele era diferente desde pequeno.

 A diferença emerge no momento em que o indivíduo não consegue se ver enquadrado nos modelos sociais institucionalizados, os quais ele deveria incorporar. Distanciando-nos de qualquer reducionismo simplista é preciso deixar muito bem claro que nem sempre a pessoa homossexual não se identificará com os elementos atribuídos socialmente ao gênero em que ela foi designada ao nascer. Há mulheres cis lésbicas que brincaram com bonecas, usaram e usam roupas socialmente tidas como femininas, ou homens cis gays que brincaram e se identificaram/identificam com os elementos atribuídos, socialmente, a ele, como o futebol, por exemplo, isso só afirma a complexidade e o quão é difícil enquadrar as pessoas, de forma ampla, em classificações rígidas e cristalizadas. Estamos muito longe de ser elementos estáticos e classificáveis, tais quais os que encontram-se organizados na tabela periódica.
O horizonte que devemos vislumbrar e lutar para que a sociedade também o vislumbre é aquele que permite a liberdade de vivência individual, não precisamos, na verdade não devemos partir dos princípios que determinam as formas como cada indivíduo deve portar-se. O caminho natural poderia ser o da livre descoberta, da livre aceitação e do livre reconhecimento de si mesmo. Antes de podermos entender quem somos, nossos médicos, nossos pais, nossa religião, nossa escola e nossa sociedade já nos definiu, já nos sonhou, planejou e nos realizou. Em última instância já somos a realização do sonho do outro, o que torna bastante problemático o momento em que decidimos ter nossos próprios sonhos e seguir nossa própria identidade, especialmente quando tais sonhos e identidade estão muito distantes daquilo que foi esperado de nós.
A questão do sonho dos outros é extremamente complicada e pode gerar uma série de conflitos e problemas, não só no âmbito da sexualidade e gênero. Não é incomum a problemática que se estabelece entre pais e filhxs quando, por exemplo, há uma discordância em relação ao curso superior que estes irão escolher, por exemplo.  Se levarmos o mesmo raciocínio para o campo da sexualidade e do gênero, temos uma ideia do quão pode ser difícil e trágico o entendimento de tal situação, justamente porque nossa sociedade não admite sob hipótese alguma tais possibilidades. Infelizmente nos deparamos com esta intolerância e falta de entendimento na figura de nossos pais, familiares, amigos, colegas, etc., e o processo de entendimento ainda é, em boa parte dos casos, doloroso e traumático.
Felizmente o mundo tem caminhado por uma estrada que tem aberto diálogos, maiores entendimentos, possibilidades de reflexão mais profunda e hoje, apesar de diversas limitações promovidas pelo pensamento conservador, intolerante e preconceituoso, conseguimos promover debates acerca da sexualidade, do gênero, das identidades e não há dúvida de que o debate hoje no século XXI, está bem distante do vivenciado na década de 1950 ou 1970, entretanto, ainda temos muito a avançar e construir, esta luta não pode parar, precisa permanecer firme, pelo menos até o dia em que ninguém morra ou se fira por ser lésbica, trans ou gay. Até o dia em que entender-se homossexual ou trans não signifique trilhar um caminho árduo, repleto de pedras, obstáculos, agressões, assassinatos ou mesmo suicídio, como infelizmente ainda ocorre.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O Armário

Olá meus queridos, desta vez fiquei bastante tempo fora e não sei qual vai ser a frequência das minhas postagens por aqui. Pra quebrar o jejum, tem texto novo hoje sobre um assunto bem delicado: O Armário. Podem comentar com suas opiniões, experiências, etc., se quiserem mandar comentários por e-mail, sintam-se a vontade.

Boa Leitura!

Sobre sair do Armário
Image courtesy of pakorn at FreeDigitalPhotos.net

São milhares os endereços e textos na internet que falam sobre aceitação, autoconfiança, preconceito, etc. Talvez este seja só mais um entre tantos e, ainda assim,  escreveremos por acreditar que nunca é demais falar sobre o processo de autoaceitação, de se assumir e  das consequências boas e ruins que isto pode trazer a vida de alguém.
Quem é homossexual vive ou viveu, sem dúvida, a sombra de se assumir ou não, este questionamento persegue segue a vida de alguns por pouco tempo, de outros por muito, já para alguns outros ele nunca deixará de existir, claro que essa não é uma das escolhas mais fáceis a se fazer e tem de ser muito bem ponderada antes da decisão ser, de fato, tomada.
Ninguém escolhe ser homossexual, bissexual, transexual, etc., mas as pessoas podem escolher, infelizmente acreditamos, passar a vida se escondendo atrás de máscaras e fantasias. Por não enxergar alternativa a não ser esta, optam pelo que acreditam ser o caminho menos árduo, motivados, boa parte das vezes,  pelo medo. O medo a reação da família, dos amigos, dos colegas no trabalho ou na escola, pelo medo a reação da sociedade. Pouco importa como a pessoa sente-se, desde que o que lhe é externo continue enxergando aquilo que a sociedade quer enxergar. A preocupação maior está em responder as expectativas que o mundo despejou em nossas vidas. Algumas  vezes este mundo é representado primeiramente pela figura da nossa mãe ou pai, um tio, uma tia, depois os amigos, talvez chefes, colegas. No fim, o próprio mundo.
Lendo algumas matérias e relatos fica a impressão de que dizer que somos homossexuais é uma das coisas mais fáceis que possamos fazer. Bem, a realidade não é assim. Também não é sempre que os discursos de "vai ficar tudo bem", são verdadeiros, é preciso estar preparado para o: "Talvez nem tudo fique bem". O fato é que nós vivenciamos realidades específicas e particulares, cabendo a cada um ponderar a hora e o momento mais oportuno. Não existe a idade certa, ser muito jovem ou muito velho, ser cedo ou tarde demais, nenhum desses discursos devem influenciar nossa atitude e vontade.
Cada individuo possui formas próprias de expressar seu sentimento em diversas situações e não é possível prever as reações e consequências de atitudes, mas isto é óbvio. Ao decidir contar aos pais, ou quem quer seja, sobre os aspectos de nossa sexualidade é possível que eles o abracem e digam que nada mudará sob qualquer circunstância, é possível que mesmo antes de você começar a falar eles o envolvam  em um abraço e digam que tudo ficará bem. Entretanto, não é impossível que eles fiquem irreconhecíveis, o reprimam, digam coisas horríveis sobre você e sua orientação/condição, portanto, a decisão de se assumir tem que estar intimamente ligada a um preparo psicológico para uma resposta boa ou não.
Todas as incertezas, inseguranças, medos, entre tantos outros sentimentos que nos habitam não se dissolvem com a fatídica conversa. Pode ser que tudo esteja apenas começando ali. Muitos perdem por completo a liberdade, passam a ser vigiados, alvos de desconfiança e às vezes tudo que você é, já fez  ou ainda fará perde a importância e deixam de ser méritos seus, porque a única coisa que as pessoas irão em enxergar é o fato de ser gay, lésbica, bissexual, enfim, e isso pode vir a  anular qualquer coisa "boa" (aos olhos da sociedade) que venha de você.
A impressão é que a partir do momento em que alguém  decide revelar as pessoas ser homossexual é preciso reconstruir novamente a personalidade perante a elas, ou ao menos relembrá-las da sua. O preconceito em nossa sociedade chega a um ponto tão extremado que somos julgados por uma condição profundamente individual que não atinge de forma nenhuma a vida de quem quer que seja. Afinal de contas, o que as pessoas têm a ver com quem eu vou ou deixo de me relacionar sentimental ou fisicamente?
Alguns têm a sensação de que o que é externo muda depois que nos assumimos. De fato, pouca coisa muda, isto para não dizer que pode ser que nada mude. As pessoas, em geral, continuarão preconceituosas, machistas, mesquinhas, etc. A principal mudança não será a concepção das pessoas sobre você, mas sim, sua próprias concepções sobre você mesmo e a forma pela qual  se enxerga o mundo
A mensagem mais importante a se deixar é que o momento certo para conversar sobre sua orientação/condição sexual é aquele definido por nós, seja ele qual for. O essencial é ter segurança e jamais permitir que a sociedade que nos cerca, suplante ou diminua nossa vida, esperando que realizemos seus sonhos e suas aspirações em detrimento dos nossos.
No instante em que arrancamos nossas máscaras e abandonamos o armário, uma série de preocupações deixam de existir, uma série de outras afloram, mas o mais importante é se abrir, lutar, argumentar e mostrar que não somos motivo de vergonha sob nenhum aspecto, pelo contrário. Só assim é que dia a dia ganharemos espaço e mostraremos aquilo que tanto se luta para cristalizar na mentalidade e cotidiano das pessoas, não há nada demais em ser gay.