quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Enem

O Enem Feminista
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Algo que era até pouco tempo impensável aconteceu na vida real, tivemos uma prova de abrangência nacional, o Enem, contendo pautas sociais urgentes, envolvendo questões acerca de gênero, feminismo e violência contra a mulher, pautas que tantos setores lutam para que sejam inseridas fortemente na escola, esteve colocada na avaliação que há algum tempo pretende ser um mecanismo de uniformização do que se aprende nessa.
Vivemos um momento de grande tensão, há um insistente discurso afirmando uma crise econômica que se mostra contraditória e não muito palpável; há com certeza uma crise política representada no atual momento por um engessamento das decisões políticas federais e andamento de tais decisões, somado a isso percebemos uma onda conservadora e machista em voga na sociedade, refletida na câmara dos deputados e em alguns dos últimos projetos por ela apresentados.
Na tentativa de fazer frente a onda conservadora os movimentos e pessoas diretamente atingidos por ela tem reagido, entre eles, o LGBT (ressalvadas as devidas proporções) e o feminismo, pretendendo não ter suas vozes caladas nem seus direitos, conquistados com difíceis lutas, sufocados. É nesse contexto que o Enem, em sua última edição, trouxe a tona Simone de Beauvoir -um ícone para o feminismo-, e a "Persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira". Uma sociedade que ainda mata mulheres, as exclui, as vê em posição de inferioridade em relação aos homens, que as desqualifica, incapacita e as sufoca. Uma sociedade que violenta física, social e moralmente mulheres de todos os tipos, embora também haja uma seletividade no grau de tal exclusão e violência.
O Enem trouxe à luz a possibilidade de um debate muito mais amplo e profundo que transcende o alcance e objetivos da prova, os traços do ódio contra a mulher e a violência que ele gera está escancarado em nossa sociedade,  infelizmente. O exemplo mais claro no momento esteja, talvez, em boa parte dos julgamentos e ofensas proferidos a atual presidenta do país, muitos revoltados sem causa, pautam-se apenas no fato de Dilma ser mulher para desqualificá-la do cargo que ocupa, usando de xingamentos e ofensas misóginas, que passam para muitos, despercebidos e descolados de tal carga.
O Enem foi ainda mais além, ao abrir a possibilidade na mente de aproximadamente 8 milhões de jovens e adultos de se discutir gênero e identidade de gênero ao citar: "Ninguém nasce mulher; torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; [...]" trecho do livro O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Claro que a prova trazia apenas um trecho de uma obra bem mais profunda e complexa, mas é uma semente, uma iniciativa, sendo otimista, uma luz. Já apresentamos em outros momentos aqui no blog algumas discussões acerca de gênero e voltaremos a falar dele, pois é fundamental falar sobre a construção do gênero e das identidades, para falar de machismo, homofobia, preconceito, etc.
É importante olhar para a sociedade e constatar que de alguns lugares as vozes dos oprimidos conseguem ecoar e se fazer ouvir. O tema de redação do Enem, foi muito mais que um tema, foi muito mais que uma redação e muito maior que o Enem, foi o grito de milhares de mulheres que sofreram e ainda sofrem caladas, diariamente violentadas pelo machismo na figura do homem desconhecido e especialmente do conhecido; algumas vezes na figura da própria da mulher que nasce e cresce envolta por valores que a inferiorizam perante a sociedade.
A violência contra a mulher precisa parar, deve deixar de persistir na sociedade brasileira e em qualquer outra sociedade, igualdade e respeito é o que todos nós merecemos. E em meio há tantos absurdos e a violência dos últimos tempos, abrir o Enem e ler Simone, é no mínimo pra nos encher de esperança.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Machista

                             Bicha Machista
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Este poderia ser um texto sobre como os homossexuais são afetados diariamente pelo machismo e pela heteronormatividade que ainda rege nossa vida em sociedade, palavras e frases não faltariam para dizer o quanto um homossexual é prejudicado, ameaçado e lesado cotidianamente por esse mesmo machismo.
Qualquer pessoa teria um número considerável de exemplos passíveis de serem citados aqui: homens, mulheres, gays, lésbicas, etc., mas nosso foco se trata do  machismo no interior do cotidiano gay, aquele cometido pelos próprios homossexuais, o que apesar de causar certo espanto é algo não muito incomum
Qualquer pessoa que já frequentou salas de bate papo, sites de relacionamento ou os aplicativos de "caça", já se deparou, muito provavelmente, com o tipo de cara que preza pela discrição, anonimato e o submundo de tudo que permanece as escuras, as justificativas para isso são muitas e figuram desde os que apenas não querem expor sua individualidade até os que são casados. Outra característica bastante comum "no meio" reside na preferência pelos não afetados e discretos. A primeira vista pode parecer apenas uma questão de preferência e atração, mas em boa parte há certa dose de machismo permeando tais preferências.
Seria desnecessário repetir que vivemos em uma sociedade machista e nosso processo de socialização nos incentiva a também sermos, tema de uma outra postagem (http://alternnativag.blogspot.com.br/2014/07/a-construcao-do-preconceito-nao-e.html). Entretanto, podemos desenvolver outras formas de pensar, que não a que nos é imposta, porém boa parte das pessoas não consegue se desprender facilmente de tais valores tão bem arraigados e muitas vezes confundidos com o próprio indivíduo, claro que o machismo cresce conosco, somos influenciados e afetados por ele, cabendo a nós, em especial a alguns grupos, lutar contra.
Um dos grupos que fazemos menção no parágrafo acima é, ou ao menos  deveria ser, inquestionavelmente, os homossexuais e, embora esse combate seja muito mais comum, por questões óbvias, entre as lésbicas, parece não haver um paralelo direto e bem definido entre os gays, pelo contrário, é possível enxergar a sobrevivência e permanência de atitudes e posturas machistas, também nesse meio, um paradoxo, uma abominável contradição.
Muitos gays não conseguem sair do temeroso armário, vivem as sombras de uma mentira prestes a ser revelada a qualquer instante. Fazem dele -o armário- seu maior e mais seguro suporte e  refúgio e, por saberem que nunca estão em plena segurança a ameaça da descoberta os afugenta, fazendo-os recorrer a todas as armas possíveis e capazes de protegê-los neste casulo.  Em alguns casos, ou boa parte deles, ou em todos eles, a posição machista destes indivíduos é uma forma de fortalecer o armário, dar seguridade ao esconderijo.
Para além desta questão, há ainda uma mais problemática: Trata-se dos gays que desprezam e desdenham daqueles que possuem trejeitos tipicamente femininos, muitos se referem a eles com ar pejorativo, ar semelhante aquele dispensado pelos héteros em relação aos gays de forma geral. Porque caso estas pessoas não tenha se dado conta ainda, para a sociedade normatizada não existe o "gay machão" e o "gay bichinha", existe apenas o gay e se você no interior do grupo cria essa dualidade, significa a aceitação do mesmo preconceito e das mesmas raízes machistas desta sociedade. Há uma desconstrução total e interior ao movimento LGBT, que tanto luta, tanto grita e tanto morre na batalha contra o preconceito.
Tratar com desprezo ou desdém e mais preconceito qualquer individuo não torna ninguém mais ou menos gay e esse ato deliberado de criticar alguém pelas características constituintes de sua personalidade é preconceito e pior, revestido de machismo.
Para tornar a situação um pouco mais complexa outro ponto se coloca entre os homossexuais com total relação ao machismo presente entre nós: A questão de ser ativo ou passivo, representando o que consideramos ser uma das maiores contradição entre os gays, pois parece que a relação, também machista e heteronormativa, estabelecida entre homem e mulher é trazida e adaptada para as relações entre dois homens.
A pergunta, "o que você curte?" é comum e usada com frequência entre homens, o que já infere que as vezes a preferência na cama tem preponderância em muitos relacionamentos. Mas e todo o resto? Há uma preocupação em saber de cara o rótulo (comum também nas relações entre héteros, importante lembrar) que cada um carrega, ativo, passivo, versátil   Essa atitude revela mais uma faceta do machismo entre os gays.
Dificilmente se ouve alguém dizer declaradamente que é passivo e isso não é a toa. Ser passivo consciente ou inconscientemente traz um peso negativo, um peso que poucas pessoas conseguem explicar de onde vem, porque na verdade nem mesmo elas sabem qual a origem. O adjetivo versátil serviu muito bem a muitas pessoas que não tinham a coragem de assumir sua preferência, não à toa que em um texto intitulado "O vilão do Grindr" já referenciado aqui no blog (http://wwwbarbrazil.blogspot.com.br/2014/03/o-vilao-do-grindr.html), é mencionada a seguinte frase: "Todos os ativos são versáteis e todos os versáteis são passivos". Claro que se trata de uma  generalização que requer maior análise, mas há de fato uma realidade vivida que se aproxima desta citação.
Ser passivo e assumir isso em alguns casos não é simples, pois implica na cabeça de muitas pessoas certa inferioridade em relação ao outro. Como mencionado anteriormente, as relações homossexuais parecem ser constantemente adaptadas as relações heterossexuais, sendo assim, necessariamente as pessoas precisam identificar quem é o homem e a mulher da relação; quem manda e quem obedece. Aceita-se de forma rasa e conformada, mais uma vez todo o machismo também cometido contra a mulher.
Já é um absurdo esse tipo de relação entre pessoas de sexos opostos. Já é um absurdo o machismo ainda sobreviver, mas absurdo maior é tentar transpor e tornar iguais coisas que em essência são diferentes. E mais absurdo é ter que falar em desconstrução do machismo em um meio, cujo objetivo político-social deveria ser por natureza, desconstruí-lo. 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Heternormatividade

A  Heteronormatividade Nossa de Cada Dia

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Nascemos e crescemos permeados por valores e socializações heterossexuais, nossa genitália define nosso gênero, orientação sexual, afinidades, preferências, estilos, etc., não é dada opção de discordância, mudança ou alternativas.
Indivíduos identificados como do sexo feminino ao nascer terão impositivamente de usar rosa e brincar de boneca, em oposição aqueles do sexo masculino que usarão azul, terão como brinquedos os carros, bolas, brincarão de luta ou outras atividades tidas como menos delicadas, assim, as situações são estabelecidas e assim, tem que ser seguido. No entanto as pessoas são muito mais complexas e diversas, de tal forma que esses valores heteronormativos não conseguem abarcá-las em sua complexidade. Meninos podem brincar de boneca e gostar de rosa, sem isso querer dizer que ele é ou será homossexual na vida adulta, mulheres podem preferir as bolas, a luta, carros e azul e isso não precisa necessariamente ter relação com as pessoas com as quais elas se relacionará: homens ou mulheres.
A definição de nossa sexualidade é permeada por uma série de fatores biológicos e socioculturais de uma maneira tão complexa e intrincada que ainda hoje é uma incógnita para psicólogos, médicos, biólogos e demais estudiosos do tema o momento em que alguém desenvolve a orientação sexual ou mesmo se ela é algo genético e portanto nasceria no instante em que nasce o individuo ou não.
Cada ser humano deveria ter o direito a liberdade de crescer distante dos determinismos e imposições que a sociedade ao longo de sua história instituiu como valores universais e imutáveis, entre eles a própria sexualidade e a identidade de gênero que deveriam ser elementos extremamente individuais e particulares dentro daquilo que constitui o humano, afinal de contas não cabe a ninguém opinar ou decidir a forma como cada um deve amar, se relacionar e se expressar no que diz respeito a sexualidade e ao gênero.
O resultado da crença cega em se condicionar o gênero de um indivíduo com base apenas em uma parte do corpo, a genitália, pode significar reduzir e asfixiar a expressão daquele, muito mais ampla que o pênis e a vagina, envolvendo questões bem mais profundas e complexas. É preciso entender que o gênero não é dado ou nato, se trata antes, de uma construção social transmitido na forma de valores, costumes, cultura, etc., portanto, esperar que o comportamento masculino ou feminino seja natural e estritamente ligado a uma parte do corpo é um problema. A constatação de que uma parte considerável das pessoas que nascem com vagina se identificam como sendo do sexo feminino, e as que nascem com pênis, por sua vez, se identificam como sendo do sexo masculino, não pode implicar em uma generalização absurda e errônea, pois sufoca uma série de pessoas que não estão abarcadas por esta maioria, mas devem ter assegurados os mesmos direitos e dignidade.
Os transgêneros existem, assim, como os transexuais e os não-binários  e não podem ter sua existência obscurecida ou asfixiada pelo preconceito, desconhecimento e ignorância. Precisam antes de mais nada ter assegurado o direito de expressar sua identidade da forma como se identificam, seja na forma da lei ou no convívio em sociedade, mas para isso uma mudança brusca e urgente na forma como as pessoas, em geral, encaram a sexualidade e o gênero  precisa ser realizada.
Não é pequeno o número de indivíduos que se veem em situações de profunda confusão ao não conseguir se encaixar nos padrões estabelecidos como "normais", o que gera margem para estas pessoas acreditarem portar algum tipo de problema ou desvio negativo, o resultado desse caminho em alguns casos é a negação da própria individualidade, negação motivada pelo medo ao preconceito, a exclusão, a reação da sociedade, etc.
É mais do que hora de abrirmos a mente e o pensamento, entender que a realidade é bem maior que o nosso quadrado e as formas de expressar aspectos individuais de nossa personalidade, devem ser individuais, nunca impostos pela sociedade representada na figura de quem quer que seja.

Referência
http://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/nao-binarios-publicam-selfies-nas-redes-para-mostrar-que-significa-essa-identidade-de-genero-14383736